setembro 09, 2005

black is beautiful? yes, being a rich black

Usar uma mulher – negra, de meia-idade e muito bem-sucedida – foi a arma do governo de George W. Bush para tentar manipular a imprensa. No momento em que congressistas negros acusaram o governo americano de demorar no socorro à população de New Orleans (67% são negros), ela apareceu em público. A pós-graduada intelectual Condoleezza Rice se apresentou à imprensa para seu show de solidariedade. Mas, por sorte, os jornalistas não se deixaram enganar. Questionaram o motivo da visita – já que seu trabalho como Secretária de Estado é voltado para as relações exteriores. Perguntaram por que o governo demorou tanto a agir – se foi mesmo por preconceito – e quiseram saber até o que adiantaria uma visita dela à região atingida, passados tantos dias do início da tragédia. E completaram a entrevista acusando o governo de ter recusado auxílio estrangeiro. Sem perder a segurança e sem desmanchar o sorriso contido, a secretária de Estado respondeu com frases feitas e de efeito ("sou do Sul e me identifico com a população"), e encerrou a entrevista rapidamente, antes que ficasse sem ter o que dizer. O que a Condoleezza Rice conseguiu demonstrar – nessa entrevista, em suas viagens internacionais e até em sua biografia – é que o que diferencia as pessoas não é o sexo, a raça ou a idade. Enquanto aparecia em público tentando limpar a barra do seu chefe, de quem poderá ser a sucessora, pessoas da mesma origem, idade, sexo e raça eram vistas no noticiário chorando e pedindo um copo de água, um prato de comida. A diferença? A conta bancária. A medíocre encenação de Condoleezza tentando demonstrar emoção e solidariedade talvez tenha tido utilidade: mostrar que a imprensa pode – e deve – ser implacável quando se usa a condição de minoria (mulher e negra) para enganar a opinião pública. E que não se pode acreditar que o fato de ser mulher torna os políticos melhores. A atuação dos repórteres americanos – que trataram a secretária de Estado apenas como um político que faz parte de um governo mais preocupado com seus interesses do que com seus cidadãos – poderia servir de exemplo para nós. A tentativa de Condoleezza de comover a imprensa com seu passado de sulista que venceu os preconceitos não convenceu ninguém. Talvez porque, ao contrário dos políticos brasileiros, Condoleezza não tenha derramado uma lágrima enquanto falava da grande tragédia que atingiu seus antigos vizinhos. Naquele momento, Condoleezza não era mulher, muito menos negra. Era uma representante do governo. E foi interrogada como tal.
Um tratamento bem diferente do que as autoridades brasileiras recebem da imprensa, quando convocam uma coletiva.
Ligia Martins de Almeida, Jornalista in Apropriação indébita da imagem da mulher PESOS E MEDIDAS http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br

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