setembro 06, 2005

o silêncio dos inocentes

OU o barulho dos intelectuais Cadê o contraditório?
Caia Fittipaldi Onde estão publicados os argumentos que ajudem os grandes públicos-leitores a interpretar, com algum equilíbrio, a situação de brabíssima disputa política em que o Brasil se debate hoje?! Que "grande mídia", aliás, "noticiou" essa disputa política, brabíssima, de fundo, histórica, de raiz, no Brasil, há séculos, que explode hoje, como jamais antes explodiu, em 500 anos? ...Os brasileiros leitores de jornal não sabem ler e interpretar e criticar discursos políticos, por pelo menos duas razões, qualquer uma das quais basta, sozinha, para explicar quase toda a nossa tragédia nacional brasileira, hoje, de já não termos nenhuma opinião pública democrática. Primeiro, não temos opinião pública democrática porque nenhum dos chamados "meios de comunicação de massa" ocupa-se em dar voz, nas discussões pelos jornais, por exemplo, a intelectuais como João Pedro Stédile (para ficarmos só nesse).
Cadê, nesse diálogo "midiático", o contraditório? Quero dizer: cadê as manchetes que implantem o contraditório também nas discussões sociais? Que ensinem que, sem contraditório, não há discussão social democrática e pró-democratização?
Cadê "o outro lado", além de um falso "outro lado" de pé de página, escondido, ocultado, mascarado, mais fraco e falsificado que nota de 3 dólares?
A segunda razão pela qual não temos opinião pública democrática talvez se explique pela primeira; ou, talvez, seja, ela, a explicação para a primeira: assim como não temos imprensa de democratização, tampouco temos universidade democrática, democratizatória, para a democratização e a redemocratização da opinião pública, no Brasil pós-golpe de 64. O que temos, no Brasil, ainda é uma universidade autista, autocentrada, auto-referente. Uma universidade na qual o importante instituto da autonomia da universidade existe, apenas, para permitir e legalizar e legitimar que os bodes continuem, para sempre, a tomar conta da horta. Com mais de 500 anos de história oficial, o Brasil ainda não conseguiu impor a nação à universidade. Ainda vivemos aqui como se a universidade tivesse algum direito divino de ignorar a nação real e de inventar outra nação, fictícia, forjada, uma outra nação... que lhe pareça, à universidade que temos, mais... correta? Mais certinha? Mais "natural"? Mais "facinha" de explicar ou de fingir que explica? Com essas duas desgraças, nenhuma nação precisa de inimigos: a própria nação destrói-se, mutila-se, cala-se a si mesma, amordaça-se, esteriliza-se... e elege candidatos que se apresentem como "professô-dotô". Qualquer candidato.
...cadê, entre os intelectuais brasileiros "de academia", os intelectuais que ajudem os brasileiros a defender o próprio voto e o presidente Lula que nós – os brasileiros sem-jornal, sem-discurso, sem-voz, sem-microfone, sem-televisão e sem-universidade – elegemos em eleições democráticas? Esses são os intelectuais que, hoje, no Brasil, nos fazem muita falta, sim, aos brasileiros pobres. Difícil saber Ou, então, esses intelectuais que fazem falta ao Brasil estão escondidos, acovardados, mortos de medo de perderem os empregos e os espaços nas panelas de nossas universidades acanalhadas (públicas e acanalhadas, e privadas e acanalhadas; os professores de uma, hoje, são os professores da outra; a privatização socializou o acanalhamento, no que diga respeito a universidades, no Brasil tucano). Nesse caso, é preciso denunciar todos os acanalhamentos de todos os nossos letrados. Pra ver se acordamos o que ainda haja de politicamente consistente, nos letrados que sobraram, ao Brasil. Pra ver se reconstruímos nossos intelectuais públicos e nossos intelectuais democráticos.Quem pense que as universidades brasileiras públicas, hoje, sejam "ghetos petistas", das três uma: escreve sobre ghetos sem saber nada de ghetos; escreve sobre petistas sem saber nada de petistas; ou escreve sobre universidades públicas brasileiras, em 2005, sem saber nada de universidades públicas brasileiras em 2005. Difícil, nesse caso, é saber por que alguém que não saiba nada dessas três coisas, a ponto de escrever tantas tolices sobre as três, ao mesmo tempo, no mesmo parágrafo, ainda tenha espaço tão nobre para escrever sempre. A luta continua.Jornal de Debates http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br

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