setembro 30, 2006

vazamento

Delegado assume ter liberado fotos do dinheiro
Acabou o mistério. O delegado Edmilson Bruno, da Polícia Federal de São Paulo, reconheceu neste sábado que foi ele quem repassou a jornalistas o CD com as fotos do monturo de dinheiro (R$ 1,75 milhão) que seria utilizado para comprar o dossiê antitucano. Mais: ele anunciou para segunda-feira a intenção de conceder uma entrevista coletiva. Dirá, segundo disse, “coisas surpreendentes”. Josias de Souza
seria vendeta?

‘o delegado Bruno, que estava de plantão na madrugada de sexta-feira e prendeu Valdebran Padilha, foi afastado do caso e no lugar dele foram acionados policiais ligados ao superintendente em exercício da PF em São Paulo, Severino Alexandre, indicado para a diretoria executiva do órgão pelo diretor-executivo’. dossiê ou dicionário?

alerta

Los dueños de la realidad

Máxima alerta sobre la inmediata puesta en marcha de un plan de censura global de los medios digitales alternativos

inSurGente - El asunto es grave. Muy grave. Y nos afecta a todos, editores y lectores de los medios alternativos, hombres y mujeres que nos negamos a abrevar en las fuentes contaminadas de Falsimedia. El capitalismo mundial lanzará en octubre una nueva arma liberticida: el Protocolo Automatizado de Acceso a Contenidos (ACAP).

Quédense con el nombre y hagan clic en "Leer más" para acceder a un magnífico artículo de Julio Carreras en el que se nos explica lo que se avecina.

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MÍDIA EQUILIBRADA?

Mídia 'abafa' investigações contra PSDB

Segundo relatos de jornalistas das principais redações do país colhidos pela Carta Maior, há uma 'ordem velada' para se poupar as candidaturas tucanas. Equipes são destacadas para investigar a suposta venda do dossiê, enquanto pautas sobre relação dos tucanos com sanguessugas são vetadas.

> LEIA MAIS | Política | 29/09/2006

cenários

´Quais serão os reflexos da campanha na agenda nacional?

O caso dossiê aguçou o clima da campanha eleitoral. Carta Maior ouviu opiniões de representantes de diversos setores para tentar antecipar as conseqüências disso tudo na formação do Congresso Nacional e na definição da agenda do País.

BRASÍLIA – Quase duas semanas depois dos primeiros ecos do fracasso da “Operação Tabajara” - desbaratada com a prisão de petistas pegos em flagrante (...) pairam dúvidas no ar. Não apenas em relação à trama policial envolta nas investigações sobre a origem do dinheiro, mas também, e principalmente, sobre as possíveis conseqüências que o desastrado episódio pode trazer para a constituição das forças partidárias no Congresso Nacional e – mais ainda – para os destinos da agenda do País na quadra que se segue.

Os cálculos do analista político do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Antônio Augusto de Queiroz, prevêem, como reflexo imediato à crise do dossiê, um provável recuo da bancada petista na Câmara Federal.

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Para o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), é possível que a crise do dossiê tenha atingido as candidaturas do PT, tanto majoritárias quanto proporcionais.

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No campo da sociedade civil organizada, prevalece o entendimento de que o abalo nesta fase final das eleições não deve se reverter em mudanças no quadro de composição no Congresso

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Além da questão mais específica do peso de cada bancada, existe um outro aspecto de singular relevância para o andamento dos trabalhos parlamentares. Consumada a crise, não faltaram análises prevendo a transposição do clima hostil da disputa eleitoral para o Congresso. De acordo com essa tese, o próximo governo, independentemente de quem vença as eleições, terá de transitar por um campo minado repleto de desentendimentos e intransigências pós-eleitorais no relacionamento com o Poder Legislativo. O próprio presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), não crê, contudo, que as tensões geradas pela mais recente crise possam modificar ainda mais o cenário de contaminação já existente ao longo da atual legislatura.

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“Trata-se mais um fator complicador para a governabilidade dentro do somatório de crises passadas, mas o efeito particular dessa crise do dossiê parece ser muito mais midiático do que político”, avalia José Alves Donizeth, professor de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB). Na visão dele, o quadro só mudará de estágio – e passaria a estremecer o quadro político -, se houver a descoberta de utilização direta de recursos públicos na tentativa de compra do dossiê, o que parece não ter ocorrido.

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O posicionamento do deputado federal Walter Feldman (PSDB-SP) revela que a disposição dos oposicionistas parece seguir outra orientação. "É difícil fazer qualquer previsão neste momento agudo e dramático, mas caso Lula seja reeleito, mesmo com toda legitimidade do voto, o clima deve ser de grande instabilidade", sublinha Feldman, sugerindo que apenas uma possível vitória do principal oponente de Lula, o tucano Geraldo Alckmin, poderia desembocar num quadro diferente.

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Caso o presidente Lula seja mesmo reeleito, o caminho para uma agenda de aprofundamento de mudanças, na opinião de Guilherme Delgado, pesquisador do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), está na utilização do cacife eleitoral para a definição de um novo padrão de governabilidade. (...) Delgado acredita que o ano de 2007 será demarcatório e a envergadura do novo governo estará relacionada com a realização de duas reformas simbólicas: a Política e a Agrária.

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Dentro do Executivo, ministros acenam com bandeira branca. “O acirramento eleitoral é uma guerra. Passada a guerra, temos que buscar construir a paz”, contemporiza Luiz Marinho, ministro do Trabalho e Emprego. Um dos principais canais de diálogo para o entendimento entre as partes poderá se dar com os tucanos José Serra e Aécio Neves, que devem ser confirmados no comando dos governos de São Paulo e Minas Gerais, respectivamente.

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O tremular de bandeiras brancas ameniza, mas não dizima o clima de recrudescimento alimentado pela crise do dossiê. “Há um certo pessimismo. As posições se acirraram e isso dificultará a formação de consenso. Quem vencer terá que adaptar sua agenda”, antecipa Queiroz, do Diap. Segundo ele, a prioridade absoluta para o ano de 2007, qualquer que seja o governo que assuma, será a aprovação da proposta de emenda constitucional de renovação da Contribuição Provisória de Movimentação Financeira (CPMF) e a Desvinculação dos Recursos da União (DRU). Projetos que dependem diretamente da força da bancada do PT, como o Estatuto da Igualdade Racial, também podem ter a tramitação negligenciada por causa dos efeitos da crise do dossiê, aventa o experiente Queiroz, mais conhecido como “Toninho”.

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Nem uma eventual vitória de Lula no primeiro turno consegue afastar a previsão de chuvas e trovoadas. “Não teremos situação fácil para o próximo mandato”, coloca Artur Henrique, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT).

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“Independentemente deste episódio (da crise do dossiê), a tendência no segundo mandato é ter mais mobilização dos movimentos”, adiciona Nalu Farias, da coordenação da Marcha Mundial de Mulheres.

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Há, nesse embate, uma contradição apontada por Moroni, do Inesc e da Abong. “Como manter crítica e independência em relação a um segundo mandato num cenário de acirramento da disputa política? Várias organizações e movimentos têm dificuldade grande de fazer crítica com receio que isso fortaleça o conservadorismo no Brasil. Ás vezes, críticas mais contundentes acabam sendo mediadas”, lembra. “Isso é um desafio que a gente enfrenta. Mas apesar das diferentes avaliações, conseguimos manter certa unidade”.

Outras lideranças de movimentos sociais, por seu turno, advertem que seria melhor se não houvesse um tensionamento tão grande entre oposição e o governo. “Isso desestabiliza, não é bom para a democracia e nem para os projetos futuros”, reflete Benedito Barbosa, da Central dos Movimentos Populares (CMP).

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José Augusto Fernandes, diretor-executivo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), também considera que o clima de enfrentamento acirrado é o pior possível. Para a CNI, a definição do grupo que vai ser dominante no próximo governo é mais importante do que a relação do governo com a oposição. Sabe que, dependendo de quem prevalecer, muito dificilmente será aprovada uma Reforma da Previdência, prioridade absoluta da entidade, como parte de uma agenda entregue a todos os candidatos.

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A Federação de Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), por sua vez, já anunciou a instalação de cinco comitês para acompanhar projetos no Congresso. Considera prioridade ampliar a composição do Conselho Monetário Nacional (CMN), que decide a meta de inflação. (...) Para a Fiesp, que aliás tem demonstrado grande afinação com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, quem ganha sai com força das urnas. Por isso, eles não acreditam na fragilidade do governo diante do Congresso.

Nos bastidores, porém, determinados setores empresariais não conseguem esconder que, para impedir votações das quais discordam, estariam dispostos a ressuscitar a crise política.

pesquisas eleitorais

(...) De 1º de janeiro a 22 de setembro, os institutos de pesquisa do país registraram 362 pesquisas sobre intenção de voto para presidente no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na última semana de campanha, esse número pulou para 475 – 113 estudos registrados em sete dias, mais de 16 por dia.

Uma resolução do TSE de março deste ano (número 22.143) determinou que, cinco dias antes da divulgação, todas as pesquisas eleitorais fossem registradas nos tribunais, incluindo-se os dados sobre sua metodologia, a origem dos recursos e questionários aplicados.

(...) Quando os estudos envolvem sondagem sobre os candidatos a presidente, esse registro deve ser feito no próprio TSE. De acordo com a resolução, as pesquisas que não forem destinadas à divulgação não precisam de registro.

"Isso significa que o número de levantamentos realizados pode ser ainda maior", destaca o cientista político Alberto Almeida, autor do livro Como São Feitas as Pesquisas Eleitorais e de Opinião (Editora FGV). (...) A maior parte das pesquisas não é divulgada, explica ele. "São pesquisas que não mostram apenas a preferência do eleitor, mais avaliam a imagem do candidato, as principais questões levantadas pelos eleitores e as possíveis soluções para os problemas", diz o cientista político.

Na avaliação dele, as pesquisas eleitorais desempenham diversos papéis no processo eleitoral. Para os meios de comunicação, funcionam como notícia. Para o eleitor, como informação. E, para os candidatos, são elemento essencial para as estratégias de campanha.

"Este ano, observamos um menor número de questionamentos com relação às pesquisas divulgadas na imprensa sobre a disputa pela presidência. Acho que isso se deve ao fato de ser uma eleição teoricamente mais definida desde o início. Quando você tem um candidato com a preferência maior, a margem para a controvérsia diminui", diz Almeida.

Para o pesquisador, a maioria dos institutos de pesquisa brasileiros trabalha com metodologias validadas internacionalmente e confiáveis. "As suspeitas de manipulação de dados, em geral, vêm das disputas regionais. As pesquisas locais são mais questionadas, e as suspeitas de favorecimento político, mais freqüentes".

De acordo com a prestação de contas registrada no TSE em 6 de setembro, a campanha do candidato à reeleição presidencial Luiz Inácio Lula da Silva (PT) gastou, até o início deste mês, R$ 1,1 milhão com pesquisas eleitorais.

O comitê de financiamento da campanha do candidato Geraldo Alckmin (PSDB) registrou um gasto de R$ 773,5 mil com os levantamentos eleitorais. Não constam gastos com pesquisas na prestação de contas dos outros candidatos e comitês disponibilizadas pelo TSE. Agência Brasil

um peteleco

‘(...) Geraldo Alckmin defendeu ontem a ausência de Aécio Neves no debate da Globo, mas criticou a de Lula. E disse que são coisas diferentes porque um não deve explicações à população, e o outro, sim. Besteira, doutor Alckmin. Se não tem o que dizer sobre o assunto, melhor ficar calado. Urna não é tribunal. Debate também não. Com todo o respeito, acho a opinião que já expressei aqui sobre o tema a melhor: ir ou não ir não é questão moral ou ética. Obedece apenas à estratégia de campanha. As duas posturas trazem prejuízos e benefícios.’ Reinaldo Azevedo (Assim não, Alckmin!)

frase do dia

‘Nesta eleição, não se discutem os problemas brasileiros, discutem-se as manchetes.’

Alberto Dines

setembro 29, 2006

up to date

opinião

Abaixo a reeleição, viva a repetência

Marcos Sá Corrêa

26.09.2006 | Vá lá. Digamos, como se diz lá no Palácio do Planalto, que roubar, mal ou bem, todos eles roubam. Nem por isso o governo Lula deixa de estar diante de um feito inédito. Entrou na reta final de uma campanha para transformar a maioria absoluta dos brasileiros em cúmplices de tudo o que ele nem percebeu que seus amigos andavam fazendo.

Isso, antes de Lula, ninguém tentou. E ele quer conseguir sem tentar, em primeiro turno, boiando na aliança do conformismo com o desalento. Dar-lhe um segundo mandato em primeiro turno é pior do que confundir indulgência plenária com carta branca. É subverter o próprio Lula, reelegendo-o pelo avesso. Em 2002, ele pelo menos podia dizer que era a cara do povo brasileiro. Agora pretende que o povo brasileiro seja a sua cara, mesmo sem botox na testa, um terno para cada dia do ano, charuto cubano, milhão na poupança e aposentadoria especial.

Se funcionar como ele quer, será a primeira vez na História do Brasil que 126 milhões de pessoas sairiam de cada em plena crise institucional para deixar tudo como estava. Quando seu país quebrou na virada do milênio, os argentinos foram bater panela em praça para gritar aos políticos “que se vão todos”. Dos brasileiros espera-se que digam “que fiquem todos”.

No Brasil não é só a farsa que se repete como História. Às vezes a História se repete como farsa. Exemplo: o dossiê Lorenzetti. O que Lula disse desse atentado é, sem tirar nem pôr, o que dizia em 1981 o coronel Job Sant’Anna, tentando enterrar numa simulação de inquérito militar o caso do Riocentro. Na época, uma bomba estourara no colo de um capitão e um sargento do DOI-Codi. Logo, segundo o coronel, aquilo só podia ser obra dos adversários, pois o Exército não sairia por aí explodindo seus próprios arapongas.

Lula diz que, se o dossiê arrebentou nas mãos de seus cupinchas, ele deve ser um artefato armado pela oposição, porque ela está perdendo a corrida eleitoral nos institutos de pesquisa, logo, o escândalo lhe interessa. No momento em que o coronel Job falava essas bobagens, a ditadura militar tinha pouco mais de 16 anos, mas caía aos pedaços. Acabaria em quatro anos, por falência múltipla dos órgãos de repressão. A diferença, como lembrou a jornalista Miriam Leitão, fica por conta das idiossincrasias de estilo pessoal. Figueiredo usou o coronel. Lula deu o recado de viva voz.

Aos 21 anos, o regime civil parece tão envelhecido quanto a ditadura no tempo de Figueiredo. Tem um serviço de inteligência atacado de burrice, fazendo despacho em encruzilhada escura, com dinheiro que ninguém sabe de onde vem. E um presidente da República que, de mentira em mentira, virou o grande refém da maracutaia nacional. Lula e Figueiredo se parecem. Seus regimes também. Mas o brasileiro anda muito mudado.

Em 1981, em vez de ir às urnas para reeleger um presidente, ele foi às ruas fazer sua própria campanha. A das eleições diretas, diga-se de passagem. Produto de um movimento que, anos antes de escolher o primeiro presidente – Fernando Collor, por sinal, impichado – escolheu o regime em que as coisas teriam que acontecer. Duas décadas depois, o voto é direto e o regime, civil. Mas a campanha lhe foi surrupiada pelos políticos. O que não teria maior importância se estivesse em jogo só uma escolha de presidente.

Escolher presidente não é assunto que valha tirar de casa, num domingo de primavera, 126 milhões de brasileiros. Presidente de quem? Para fazer o que com ele? O país está, no fundo, sem presidente de verdade há vários mandatos. A esta altura, o eleitorado deve ter aprendido a se virar sem isso. Talvez qualquer pessoa sirva para o cargo, quando o cargo não serve mesmo para muita coisa. Presidente é importante em país que tem projeto para o futuro. O Brasil ultimamente só tem projeto para o passado.

No domingo que vem, a aposta é muito mais séria que a da presidência. Os eleitores terão que escolher uma saída para a crise em que os governos civis os enfiaram. Em outras palavras, escolherão um regime outra vez. E disso até agora eles nem foram avisados.

É uma escolha difícil. O regime que está aí, pelo visto, deu errado. Às vezes parece não ter conserto. Mas deixará saudades se em seu lugar vier coisa pior. E isso só um segundo turno daria a Lula a chance de discutir com a oposição, pondo em cima da mesa a proposta que cada um tem para sair do buraco que juntos cavaram. Não dá para fazer uma escolha dessas, com Lula escondido da campanha nos palanques de Newton Cardoso, Orestes Quercia ou Jader Barbalho, o trio que encarna sua única proposta visível para acabar com a corrupção que lhe comeu o governo no primeiro mandato. Segundo turno nele.

debate da Globo IV

O mensalão não foi ao debate

Guilherme Fiuza

O melhor participante do debate eleitoral na Rede Globo foi a câmera. Não houve, nas quase duas horas de discussão, argumento mais eloqüente que o close na cadeira vazia de Lula. O que é muito pouco.

A pouco mais de 48 horas das eleições, com o presidente cerca de 5 pontos percentuais à frente da soma de seus adversários, os escândalos que colocam seu governo sob suspeita não foram ao debate. Ou melhor: foram, mas estavam mais roucos e abatidos que o gripado candidato Cristovam Buarque.

A literatura sobre o mensalão é farta. O caso do dossiê Vedoin é grave e recém-saído do forno, mas a parasitose entre partido e governo criada pelo valerioduto é o único tema que não poderia atravessar a eleição sem ser passado a limpo. Mas atravessará.

Na hora agá, da incomparável tribuna eletrônica da Globo, Cristovam, Heloísa Helena e Geraldo Alckmin se referiram a uma “sucessão de escândalos”, à “corrupção no governo”, a “malas de dinheiro” etc – dando a impressão de estarem fazendo acusações genéricas. E isto não quer dizer nada, porque todo governo, de alguma forma, sofre acusações de corrupção.

Os três candidatos que compareceram ao debate perderam a oportunidade de ser didáticos. Se concentraram nas frases feitas e palavras de ordem, como gostam os marqueteiros, e jogaram fora a chance de reconstituir, minuciosamente, a incrível saga do mensalão.

Bastaria um bom medley de trechos da denúncia do procurador-geral da República, ou mesmo uma narrativa completa do caso Visanet – em que o alquimista Marcos Valério fez pelo menos 10 milhões de reais do Banco do Brasil sumirem, e reaparecerem nos cofres do PT.

Cristovam começou bem, dirigindo a primeira pergunta da noite ao ausente Lula. Levantou uma questão esperta: se o presidente ganhar em primeiro turno e ficar provado que o dossiê Vedoin seria pago com dinheiro de campanha, ele, sob suspeita, renunciará? Quem está votando em Lula estaria então, na verdade, votando em José Alencar?

Logo depois o senador do PDT veio com outro achado, ao afirmar que a fuga do debate também era uma forma de corrupção. “Não é roubo de dinheiro, mas é roubo de esperança”, atacou Cristovam.

Mas nem ele, nem seus concorrentes foram além de boas tiradas e slogans providenciais. Alckmin, se tivesse de conteúdo e criatividade metade do que tem de firmeza, não teria ficado na acusação a Lula de “desrespeito ao eleitor” e de que “deve ter algo a esconder”. Sorteado para perguntar sobre corrupção e dirigindo a pergunta à cadeira vazia do presidente, o tucano tinha a faca e o queijo na mão. Gastou seus 40 segundos perguntando a Lula sobre saúde e educação.

Em seguida, perguntando a Cristovam ainda sobre corrupção, Alckmin conseguiu a façanha de esfriar o assunto, indagando o que fazer para que os jovens voltem a se interessar pela política. Nessa hora, provavelmente alguns milhares de brasileiros diante da TV jogaram a toalha.

Recentemente, numa conversa por telefone, o deputado Fernando Gabeira resumiu para o candidato do PSDB a perplexidade geral com a forma como a campanha tucana vinha tratando os escândalos em torno de Lula:

— Alckmin, pelo amor de Deus, bom-mocismo tem limite!

Mas o deputado estava enganado. Bom-mocismo não tem limite. E a prova foi dada por Geraldo, o virtuoso, ao usar sua pergunta sobre corrupção para fazer a pregação da política como arte. E como atividade sadia para as melhores famílias brasileiras. Marcos Valério deve ter ficado comovido diante da TV.

A senadora Heloísa Helena trouxe o seu habitual repentismo arretado-giratório, falando aquele dialeto de funcionalismo público cheio de “implementar”, “disponibilização”, “estruturação da infra-estrutura”, “sabotamento” e por aí vai, sempre usando o palavreado máximo para explicar o mínimo.

Lula disse, na carta à Globo – citada com ironia por William Bonner – que não foi ao debate porque seria vítima de ataques virulentos e desesperados. Heloísa Helena vestiu a carapuça e caprichou: disse que o presidente comanda uma organização criminosa e não foi ao debate porque não desce do seu trono de corrupção. “Ele não tem autoridade moral para me enfrentar”, bradou a candidata, a única que fez referência ao caso do investimento milionário de uma concessionária de telefonia na empresa do filho de Lula.

HH e Cristovam fizeram a dobradinha dos opostos. Tudo que a senadora tem de agressividade, lhe falta de conhecimento de causa. O senador fala como se tivesse pedindo esmola na calçada, mas sabe bem o que diz.

Respondendo a um dos discursos mirabolantes da candidata do PSOL sobre estruturar a infra-estrutura (com dinheiro público sem fim para obras viárias), Cristovam teve a coragem de dizer: a recuperação da malha de transportes é um investimento demorado, porque “não vale pôr em risco a estabilidade econômica”. Um manifesto genuíno de responsabilidade fiscal.

Cristovam Buarque foi autor também da manifestação mais inteligente em termos eleitorais. Dirigiu-se direta e carinhosamente à militância do PT, observando o quanto ela deveria estar constrangida com a fuga de seu líder máximo do debate. “Vocês, militantes, devem estar se perguntando: por que Lula não veio ao debate? Porque não sabe explicar seu governo? Ou não sabe explicar a corrupção?” Uma tacada esperta do senador.

Alckmin fez uma denúncia consistente sobre o perigo de uma crise de energia. Mostrou que o populismo tarifário e a invasão política das agências reguladoras praticamente zerou o investimento em geração energética. O índice de chuvas no Sudeste está baixo e não há gás para as termelétricas por causa do chilique nacionalista de Evo Morales.

De resto, as discussões sobre programa de governo caíram na ladainha enciclopédica de sempre. O tanto faz dos números e propostas chegou a tal ponto que o candidato tucano, ao falar sobre redução de impostos, disse que um quilo de açúcar contém hoje 40% de esgoto. Conseguiu uma milagrosa síntese entre reforma tributária e saneamento básico.

Marcos Valério deve ter gostado dessa também. Aconteça o que acontecer, já é o grande vencedor desta eleição.

debate da Globo III

debate da Globo II

© imagem ‘a diarista’

debate da Globo I

chato e robótico

inesquecível

A volta

27.09.2006 | Sofisticado, como sempre, o ministério das Relações Exteriores inovou na prática, já tradicional entre nós, de mostrar serviço no momento adequado. No último dia 8, a menos de um mês das eleições presidenciais, tornaram-se a abrir as portas do Palácio Itamaraty, no Rio de Janeiro, para a inauguração o espaço Vinícius de Moraes, dedicado à música brasileira. Em festa como há muito não se via, a Casa de Rio Branco celebrou, com o auxílio luxuoso da Mangueira e da Portela, a memória de nosso mais querido poeta e diplomata.

Ao erguer um brinde ao homenageado, o organizador da cerimônia, Jerônimo Moscardo, anunciou aos familiares do poeta, personalidades da política e artistas presentes que o ministro das Relações Exteriores estaria enviando à presidência da República minuta de decreto propondo a plena reintegração de Vinícius de Moraes ao serviço exterior brasileiro, com sua promoção ao nível mais alto da carreira. Tão logo seja aposta a assinatura de Lula, o imortal autor do “Samba da bênção” poderá enfim tornar-se embaixador, honraria que lhe foi negada em vida por um dos atos mais brutais da ditadura militar.

Em meados de 1968, durante a onda de protestos que sacudiu o regime, o marechal Costa e Silva teria redigido de próprio punho bilhete para o então Chanceler Magalhães Pinto ordenando: “Assunto: Vinícius de Moraes. Demita-se esse vagabundo”. Fato ou lenda, o incidente ilustra a irritação do regime com o poeta, causada não por sua escassa assiduidade ao trabalho, mas por notórias amizades à esquerda e uma discreta politização de suas letras. Tal irritação levou à abertura de processo administrativo contra Vinícius que acabou sendo exonerado, em meio às cassações que se seguiram ao Ato Institucional nº 5.

A caça às bruxas foi justificada pela ditadura como ato moralizador, objetivando purgar o serviço público de “corruptos, homossexuais e bêbados”. Amigos que foram receber Vinícius no Galeão, viram-no descer do avião abatido, amargurado, mas com uma garrafa de uísque em punho, para evitar qualquer mal-entendido: - Eu sou bêbado!

Vinícius havia ingressado na carreira diplomática em 1943, aos 29 anos, já um respeitado poeta, jornalista e crítico de cinema. Nunca foi burocrata exemplar, mas por um bom tempo soube fazer da carreira o ganha-pão que lhe permitia alçar vôos mais altos. (...)

Nas longas temporadas que passou no Rio de Janeiro, ajudou (e muito) a criar a mística do Itamaraty como celeiro de intelectuais e grande bastião da cultura. À época, o Palácio da Rua Larga operava como verdadeiro centro da vida social e política da Capital Federal – em seus gabinetes, arquitetava-se a projeção do Brasil no concerto das nações; em suas recepções, tramavam-se os destinos do país. Era um Itamaraty generoso, que sabia abrigar tanto homens de ação quanto homens de pensamento, pessoas das mais diferentes inclinações e interesses, em leque ecumênico que ia do jovem economista Roberto Campos ao promissor literato João Guimarães Rosa. Deles, exigia-se apenas que fossem geniais.

Ali, Vinícius estava em casa. O Itamaraty era seu porto e seu amparo, a instituição que lhe dava segurança e status para ir-se transformando em um dos mais ativos intelectuais da época. (...) Que mais poderia o Itamaraty exigir de seus funcionários? A arte de Vinícius era tão cativante que tinha o dom de se converter em política de Estado. Embaixador algum fez tanto pela pátria quanto ele.

Na virada dos anos 60, Vinícius começou a ficar grande demais para nossa Chancelaria. Sua celebridade atiçou a inveja dos medíocres e sua escassa fidelidade aos rigores do expediente cresceu a ponto de tornar-se lendária. (...)

Enquanto foi apenas poeta, Vinícius teve vida amena no Itamaraty, como João Cabral de Melo Neto, outro grande poeta, que sequer fazia questão de ser conhecido como diplomata. Mas ao enveredar pela música popular, e emprestar seus versos a chorões e sambistas, Vinícius conquistou a inimizade de quem nisso via comportamento licencioso, prejudicial à instituição. Houve mesmo tentativa de impedi-lo de fazer sua primeira apresentação ao vivo, em show na boate “Au Bon Gourmet”, na companhia de Tom Jobim e João Gilberto. A crise foi contornada com a decisão salomônica da alta cúpula do Itamaraty de que Vinícius poderia cantar, mas teria que se apresentar de terno e gravata. E foi assim, a caráter, que o mundo soube pela primeira vez da “Garota de Ipanema”, símbolo máximo do encanto despojado de nossa beleza e segunda canção mais gravada de todos os tempos. Nosso verdadeiro hino nacional.

Vinícius dava muito ao Itamaraty e pedia pouco em troca. Jamais usou da fama para caronear colegas ou conseguir postos cobiçados. Com 25 anos de carreira era ainda primeiro-secretário, posto que equivaleria no Exército à patente de capitão. Nunca fez mal a alguém, mas foi pelo mal alheio atingido. De certo modo, a expulsão de Vinícius marcou o fim de um Brasil afável e sonhador, que acreditava poder tornar-se um dia um país melhor. Nas trevas da ditadura, perdemos a pureza de nossa alma e a gentileza em nosso modo de ser.

Quaisquer que sejam as motivações do atual governo em promover tão tardia redenção, o Brasil agradece. E espera que, sem gravata nem terno, o poeta, agora embaixador de pleno direito, continue. Para sempre iluminando nossas vidas. Marcelo Dantas

© imagem ‘vinicius’

setembro 28, 2006

Mello adoçou a campanha

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) autorizou o uso pelos eleitores, no dia das eleições, de camisas, bonés, broches ou dísticos que indiquem preferência por partido político, coligação ou candidato Também está permitido o uso de adesivos em veículos particulares. A chamada manifestação individual e silenciosa do eleitor foi regulamentada em resolução aprovada nesta quarta-feira (27).

“Daqui a pouco estaremos exigindo que o eleitor compareça de luto às seções, ou então de terno ou de camisa de cor neutra”, afirmou o presidente do TSE, Marco Aurélio Mello, em defesa da liberação. Três ministros e o vice-procurador geral eleitoral, Francisco Xavier, posicionaram-se contra o uso de camisetas e bonés. “O que vai ocorrer, na prática, é uma panfletagem, todos os partidos vão exagerar, vão simplesmente inundar as cidades com camisetas”, alegou o vice-procurador.

(...) Servidores da Justiça Eleitoral, mesários e escrutinadores, porém, continuam proibidos de usar vestuário ou objeto que contenha qualquer propaganda de partido político, coligação ou candidato no local das seções eleitorais e juntas apuradoras. Fiscais partidários, nos trabalhos de votação, só poderão usar vestes com o nome e a sigla do partido político ou coligação a que sirvam.

É proibida, durante todo o dia da votação e em qualquer local público ou aberto ao público, a aglomeração de pessoas portando os instrumentos de propaganda referidos na cabeça deste artigo, de modo a caracterizar manifestação coletiva, com ou sem utilização de veículos. (Agência Brasil)

vermelho.org (TSE libera camisetas de partidos e candidatos no domingo)

uma campanha de verdade!

(...) Por que a mídia em geral é tão dura e tem tamanha má vontade e preconceito para com os petistas? Por que só o caixa 2 do Partido dos Trabalhadores é investigado e condenado com tanta veemência nas manchetes dos jornais e nas vozes empoladas dos âncoras na TV? Por que apenas os arapongas e os dossiês do PT são execrados?

(...) Por que condenar só o PT?! Por que centrar os focos das investigações e da notícia somente nos escândalos que envolvem petistas?!

(...) Essa República onde o povo é apenas um detalhe, um novo nome que se dá aos escravos ou servos de antanho. Um povo "ignorante", "iletrado", que, por isso, não saberia votar. Um povo constituído, em sua maioria, de pretos, pobres, analfabetos (ou semi) e nordestinos que seriam os responsáveis pela manutenção de um "encanador" na Presidência. Essa é, desgraçadamente e sem exageros, a visão das nossas elites.

Esses senhores, em consórcio desde sempre com os "donos do poder", desejam apenas prosseguir exercendo o velho e caquético mandonismo. Desejam apenas seguir perpetrando, reiteradas vezes, até a saciedade, os golpes (sejam militares ou civis), os estupros nossos de cada dia: a violação de nossas consciências, da Justiça e da liberdade; a violação e a negação do próprio espírito republicano. Como antes, em tempos idos, senhoriais, faziam com as jovens escravas.

Por essas e outras tantas que lhes digo: não se deixem abalar ou esmorecer por tanta mentira, manipulação, arapucas e outras tantas armadilhas. A hora é de arregaçar as mangas em defesa da verdadeira democracia, aquela que é "do povo, pelo povo e para o povo" - não essa de faz-de-conta que os coronéis de sempre querem nos impingir.

Por essas e outras tantas que, com a convicção de estar do lado certo, junto-me ao coro da maioria dos filhos dessa pátria, que diz em uníssono: "É Lula de novo, com a força do povo". Lula Miranda (‘Sobre arapucas, mentiras, manipulações e outras armadilhas’)

Foto: Ricardo Stuckert (Presidente Lula no ato em Sorocaba)

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Toda a militância nas ruas em 1º de outubro

Com alto grau de radicalização e polarização política, a batalha eleitoral de 2006 chega ao seu momento decisivo – “a hora da onça beber água”, segundo a metáfora do presidente Lula. Quem imaginava que seria uma disputa pacata, sem muita adrenalina e forte tensão, não tinha se dado conta do que realmente está em jogo nestas eleições. Do seu resultado em 1º de outubro, depende o futuro do Brasil e da própria América Latina.

Pela primeira vez na nossa história, um governo oriundo das lutas sociais será testado nas urnas. Com seus acertos e erros, esta experiência inédita permitiu avançar na construção de um país mais soberano, democrático e justo socialmente, superando a lógica regressiva de FHC.

A possibilidade de avançar ainda mais nestas mudanças é que apavora as classes dominantes. Através da candidatura de Geraldo Alckmin, um político identificado com a direita mais retrógrada e portador de um programa ultraliberal, as elites tentam abortar esta experiência popular e democrática. Desesperadas, elas partem para o jogo mais solerte e sujo, fabricando crises políticas diárias e contando com a venal ajuda da ditadura midiática, que tenta manipular os corações e mentes. Mas, apesar do violento bombardeio, que já teria derrubado qualquer outro governante, o presidente Lula resiste e conta com “a força do povo”. Todas as sondagens confirmam que é possível vencer as eleições ainda no primeiro turno, no próximo domingo.

Diante desta batalha de envergadura histórica, os lutadores sociais têm um papel determinante a cumprir. Eles formam o maior patrimônio de tantos anos de luta contra a ditadura militar, a ofensiva neoliberal, a exploração e a opressão. No dia da eleição, eles não se conterão em suas casas como meros expectadores. Irão para as ruas e praças, numa grande festa cívica pelo avanço da democracia, da soberania e da justiça social no Brasil. O nosso país já tem tradição de intensa e criativa participação popular nos momentos decisivos da política nacional.

(...) Sem desrespeitar a atual legislação, por mais draconiana que ela seja, é legitimo transformar o dia 1o de outubro num grande festa cívica, segundo a saudável tradição brasileira de ativa participação nas batalhas eleitorais. Com base na resolução do TSE, é possível vestir as camisetas e tremular as bandeiras de nossos candidatos em ruas e praças. Distantes dos locais de votação, também é possível visitar amigos, parentes e residências para entregar a “cola” de nossos candidatos a todos os postos – presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual.

(...) Há muito que fazer no dia 1o de outubro. Os militantes conscientes não se omitirão nesta data histórica. Os 125 milhões de cidadãos-eleitores, detentores da soberania popular, irão às urnas definir os rumos do Brasil. A militância combativa e consciente cumprirá seu papel.

Renato Rabelo (Presidente nacional do PcdoB)

campanha bíblica

Deus e o demo na terra da garoa

Xico Sá

Vivemos a campanha eleitoral mais bíblica da história. O favorito e modesto Lula está convencido que é mesmo Jesus Cristo. A oposição faz também um apocalíptico sermão da montanha de cima de qualquer banco de praça ou tamborete de samba que aparece pela frente.

FHC, 1994-2002 d.C (ou seria a.C., já que é o tucano é antecessor do presidente que se declara Cristo?) também entrou na roda. Declarado e abertamente ateu, o ex diz que o tal filho de Deus do Planalto está mais para demônio; Geraldo, fervoroso católico simpatizante da Opus Dei, o xinga de traidor de Jesus; Heloísa Helena, católica apostólica, daquelas que não podem ver uma fila de hóstia que entra, vai no gogó, chuta o escapulário como um beque de fazenda: “Esse homem é o próprio Judas”. Ei ei Eymael, um democrata-cristão, é mais fino trato, faz juras aos evangelhos e conta que está satisfeito, com sandálias da humildade aos pés, no modesto papel de ovelha do rebanho.

Candidatos a deputados estaduais do PT paulista, na propaganda eleitoral do rádio, também invocam os preceitos do livro sagrado e xingam os tucanos de “vendilhões do templo”, mirando-se no exemplo das privatizações federais e na transferência das principais estradas paulistas às empreiteiras. Enéas, aquele que reafirma o tempo inteiro o seu batismo, como fosse possível esquecê-lo, mistura versículos de João, o apocalíptico mesmo, com os vermes e os filhos do carbono e do amoníaco tirados dos versos fúnebres do poeta Augusto dos Anjos, o homem que foi punk no Brasil muitas décadas antes do Johnny Rotten na Inglaterra.

Com toda essa guerra santa, esse blogleiro, que só acredita nas mulheres e nos preceitos do Walter Benjamin que recomendam passeios pela cidade como forma de lê-la como a um livro, foi ouvir quem mais entende do assunto: os pregadores de rua, os evangélicos e profetas tidos como malucos do centrão da babilônica São Paulo.

“São todos filhos do demo, do belzebu, do coisa-ruim, do Satanás!”, sentencia, com entonação à moda Leonel Brizola, de camisa azulzinha clara e tudo, o pastor Antonio Cassiano, 47, em sermão na Praça da Sé, depois de provocado pelo repórter. “Vocês também da imprensa podem não ser filhos do demo, mas têm um certo parentesco”, detonou o representante de Deus na terra. Para piorar o estadão das coisas, fiz uma pergunta imbecil: “Essa igreja a qual o senhor pertence (Brasil para Cristo) tem alguma coisa a ver com a turma dos aloprados do Lula?” O homem quase me bate, só não o fez porque normalmente não se bate em um frágil homem de graúdos óculos de muitos graus.

Sebastião Filgueiras, simpático tiozinho dos seus 52 anos, da igreja do Evangelho Quadricular, acredita cegamente em Deus, mas tem humor. “A gente sabe que Lula não tem nada de Cristo, até porque na ceia larga só tinha um Judas, na de Lula são uns 40”, prega, numa fusão da Bíblia com o Ali-Babá do livro das mil e uma noites. “De qualquer forma só em falar em Cristo já é bom para nós evangélicos, é propaganda, né?”

Na babel pentecostal do Centrão, Manuel Vicente Souza, um jovem pregoeiro de 28 anos, acha que o mal é o que sai da boca do homem político, seja de que lado for, mas mesmo assim reprime o amigo Carlos Soares, 43, homem-sanduíche [“Compra se ouro” etc], que blasfema genericamente contra a lama dos poderes. Os dois estão ali no viaduto do Chá, a uns 100 metros do gabinete do prefeito Kassab. “Não amaldiçoarás o príncipe do teu povo”, berra, indicadores voltados aos céus, como aquele gesto dos Atletas de Cristo quando fazem qualquer golzinho. A dura do pastor, da Igreja da Última Hora, é do Livro do Êxodo (Ex 22.28.), do Velho Testamento.

Entre os profetas tidos como loucos ou loucos tidos como profetas, depende de quem olha, campanha e candidatos são coisas sem a menor importância para a vida. Cada um inventa a sua própria Bíblia. “A gente pode ser o que quiser ser, é só acordar e dizer eu sou.Você quer que eu seja quem?”, manda ver Zeca Pé-de-Pato, como é conhecido o catador de papelão e pregador que ronda a área da praça Patriarca, comentando sobre Lula/Cristo. Difícil é entender uma palavra sequer quando ele promove os sermões. Reza a lenda da área que são apenas dois por semana. “Não falo nada, e quem quiser ouvir que cale”. Melhor ficar por aqui, o cara deu um nó metafísico no juízo. Isso sim é que é falar as sábias línguas de Pentecostes. É dele o meu voto!

muita fumaça no ar

Ordem de prisão preventiva de seis acusados foi apenas uma língua de chama de uma fogueira que arde com cada vez menos intensidade. Perda de força para casos que correm em paralelo fica nítida no comportamento da oposição.

Maurício Hashizume - Carta Maior

A ordem de prisão preventiva de seis supostos envolvidos no caso da compra do dossiê contra candidatos tucanos reaqueceu momentaneamente a temperatura de um caso que já vem, a cada novo lance, perdendo o seu poder de impacto nas eleições de 1º de outubro.

Os mandatos de prisão (...) apresentada pelo procurador da República no Mato Grosso, Mário Lucio Avelar, foi acatado pela Justiça Federal, mas a determinação só foi recebida pela Polícia Federal (PF) na madrugada de terça-feira (26), quando já estava em vigor a Lei Eleitoral que suspende prisões no período que começa cinco dias antes e vai até dois dias depois do pleito.

O grau de virulência do episódio passou a ser pulverizado principalmente pela eclosão de outros casos correlacionados.

Um deles foi a abertura de inquérito, pelo delegado da PF em Cuiabá, Diógenes Curado Filho, para a investigação do empresário Abel Pereira.

(...) A divulgação do laudo do Instituto Nacional de Criminalística (INC) da PF que nega a existência - sequer de indícios - de grampos telefônicos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também contribuiu para dividir as atenções de quem acompanha o caso.

(...) Entretanto, um dos sinais mais evidentes da perda do poder de fogo do caso se encontra no comportamento dos líderes oposicionistas.

Na madrugada desta mesma terça-feira (26), às 3h03min, o jornalista Josias de Souza, da Folha de S. Paulo, divulgou em seu blog a linha de ação que os senadores Tasso Jereissati (PSDB-CE) e Jorge Bornhausen (PFL-SC), ambos presidentes de suas respectivas legendas, estariam dispostos a seguir.

(...) Antes que os presidentes do PSDB e do PFL pudessem efetivar os pedidos junto aos tribunais, porém, os números da pesquisa CNT/Sensus, que revelaram a manutenção dos índices de voto a favor da reeleição do presidente Lula, foram divulgados. O retrato da pesquisa provocou uma mudança de rumos no planejamento dos cardeais. Em vez de centrar a artilharia em Veloso, os líderes da oposição resolveram mudar o foco para Freud Godoy, na tentativa de buscar “colar” o escândalo em Lula.

(...) Jereissati deixou claro para a imprensa que pretende insistir na vinculação do caso com a Presidência da República.

(...) Outra fronteira de pressão dos oposicionistas acabou convergindo para a PF.

(...) A notícia que mais desestruturou a esclada da oposição também veio nesta terça-feira (26). A PF atestou que os US$ 248 mil encontrados com Padilha e Passos saíram de Miami, nos EUA, e entraram de forma legal no País. A origem da outra parcela de R$ 1,168 milhão está sendo investigada - já existem indícios da ligação com políticos e empresários - e deve ser apresentada em breve.

Na manhã desta quarta-feira (27), aliás, os próprios parlamentares da oposição já decidiram que devem esperar as conclusões do inquérito da PF sobre o caso da compra dos dossiês antes de entrar com qualquer possível pedido de cassação do deputado federal e presidente do PT, Ricardo Berzoini, afastado da coordenação da campanha pela citação no imbróglio.

De acordo com Marco Aurélio Garcia, novo coordenador da campanha de Lula, líderes dos partidos da oposição “não têm autoridade” para jogar “qualquer tipo de sombra” sobre o processo eleitoral. “É uma guerra de nervos, de perdedores”, afirmou, depois de se encontrar com o presidente do TSE, recorrendo mais uma vez ao verbo “melar” para definir a atitude dos adversários.

(...) A tentativa da oposição de revolver a vida de Freud Godoy, na opinião de Garcia, é “melíflua”, ou seja, não terá conseqüência prática. Ele garantiu que qualquer investigação concreta e substantiva sobre o caso comprovará a absoluta isenção de Godoy. “Se quiserem pedir quebra de sigilo telefônico, que peçam”.

“Estamos preparados para dois turnos. Mas temos a firme convicção de que a vitória virá ainda no 1º turno”, projetou Garcia. Sobre os números da pesquisa CNT/Sensus que mostram uma estabilidade da vantagem de Lula, ele (Marco Aurélio Garcia, coordenador da campanha de Lula) foi taxativo. “Precisamos terminar com a idéia que os acontecimentos são lidos da mesma maneira por toda a população. Nenhum cidadão é mais sábio que outro. Ninguém tem capacidade superior”.

Íntegra: Investigações paralelas pulverizam impacto do caso dossiê’

perfil de um jornal:

Otávio Frias Filho, também chamado nos banquetes dos ricaços de "Otavinho", está excitadíssimo com a eclosão da nova crise política no Brasil. Em recente artigo, o diretor de redação da Folha de S.Paulo (...) deixou de lado qualquer imparcialidade para xingar Lula e apostar todas as suas fichas na possibilidade do segundo turno das eleições. Metido a cientista político, ele teorizou que a recente "guerra de dossiês" comprovaria que "a cúpula petista instalou uma máfia sindical-partidária no aparelho do Estado. A função dessa máfia é garantir condições para que Lula e seu grupo se eternizem no poder... O que caracteriza os integrantes dessa máfia é a lealdade antiga e canina a Lula, o chefão".

Já sinalizando qual será postura das elites na hipótese da reeleição de Lula, o pseudo-jornalista afirma que o badalado "dossiêgate" demonstrou que, "sob o beneplácito de Lula, a máfia continua a agir de modo cada vez mais desabrido. A impunidade gerou a desfaçatez... O favoritismo eleitoral de Lula, turbinado pelas políticas de transferência de renda, aumentou ainda mais a sensação de impunidade. E espicaçou o atrevimento, a ponto da facção mafiosa correr o risco de prejudicar a reeleição do chefe na tentativa de reverter a vantagem dos tucanos na eleição paulista... Se houver segundo mandato, haverá muito trabalho para o Ministério Público, para o Judiciário e para o que restar de imprensa independente neste país".

É muita petulância deste executivo yuppie!

Quem é ele para falar em "máfia no aparelho do Estado", para condenar a "sensação de impunidade" ou para se arrogar em patrono da "imprensa independente"?

Todo e qualquer o jornalista com um mínimo de imparcialidade e dignidade, e não qualquer baba-ovo de plantão, sabe que a Famiglia Frias cresceu incrustada no poder, como uma máfia servil sob as benesses do regime militar. Sabe que esta empresa não foi condenada - ou mesmo se desculpou - por emprestar sua estrutura para a prisão e tortura de presos políticos. Sabe ainda que não existe vestígio de jornalismo independente neste grupo, manipulado e controlado sob a mão de ferro dos Frias - do velho patrono aos herdeiros.

Numa entrevista à jornalista Adriana Souza, o atual editor da revista Carta Capital (jornalista Mino Carta) , que já dirigiu os principais órgãos de imprensa do país e avalia que "o Brasil tem a pior mídia do mundo", dá outros elementos indispensáveis para se entender a história da Folha de S.Paulo. Ao contrário da propaganda deste jornal, que engana muita gente com o seu falso ecletismo e a sua aparente pluralidade, Mino Carta mostra que ele sempre serviu à ditadura e construiu sua pujança graças às benesses do poder autoritário:

"A Folha de S.Paulo nunca foi censurada. Ela até emprestou as suas C-14 [veículo tipo perua, usado na distribuição do jornal] para recolher os torturados ou pessoas que iriam ser torturadas na Oban (Operação Bandeirantes). Isso está mais do que provado. É uma das obras-primas da Folha...

(...) Até hoje a Folha de S.Paulo, que gosta de posar de democrata e transparente, tenta esconder essa período macabro que revela todo o seu caráter de classe e a sua postura direitista. Alguns jornalistas, talvez para conseguirem as benções dos Frias, fazem de tudo para relativizar o papel deste jornal durante a ditadura. (...) Mas apesar destas tentativas de ocultar a história, a envolvimento da Famiglia Frias com os órgãos de repressão é inquestionável.

(...) A briga entre a TV Globo e a Folha serve para elucidar que foi exatamente na fase mais dura da ditadura que a Famiglia Frias ergueu o seu império com base nos subsídios e nas benesses do poder. (...) Protegida pela ditadura, a Folha cresceu e passou a ter projeção nacional. (...) Somente quando percebe que o regime estava em seus estertores é que o jornal passou a pregar a redemocratização, ao mesmo tempo em que se colocava como "pioneira" do receituário neoliberal de desmonte do Estado.

Na sua badalada pluralidade, a Folha deu espaço para FHC e para o sociólogo tucano Bolívar Lamounier e abriu suas páginas para Plínio Correa de Oliveira, líder da seita católica Tradição, Família e Propriedade (TFP) e para o pefelista Marco Maciel. Num primeiro momento, apoiou o "caçador de marajás" Fernando Collor como única forma de derrotar Lula, mas logo depois engrossou o coro do impeachment. Durante os oito anos de FHC, nada falou contra as suspeitas privatizações e pregou a ortodoxia macroeconômica. Com a eleição de Lula, porém, tornou-se um dos principais instrumentos da oposição de direita.

Com a eclosão da crise política em maio do ano passado, a Folha de S.Paulo virou um palanque da mais contundente oposição. Ela chegou a fazer coro com os hidrófobos do PFL na proposta do impeachment de Lula, numa autêntica pregação do golpe midiático. Um atento comerciante paulista, Eduardo Guimarães, teve a paciência de acompanhar as manchetes deste jornal em setembro passado. Elas foram arroladas no seu blog na internet (www.cidadania.com) e impressionam pelo alto grau de manipulação. "As mensagens desfavoráveis para o candidato Lula são a maioria esmagadora... Já os adversários de Lula, sobretudo o principal, Geraldo Alckmin, foram totalmente poupados. Esse é um fato incontestável".

As conclusões do comerciante foram confirmadas por dois institutos que monitoram sistematicamente a imprensa: o Datamídia, da PUC-RS, e o Observatório Brasileiro da Mídia, filial do Media Watch Global.

(...) Apesar desta descarada manipulação, todas as sondagens eleitorais ainda apontavam a vitória de Lula no primeiro turno para o desespero dos "deformadores de opinião" da mídia. A "operação burrice" de alguns petistas afoitos, que tentaram comprar o dossiê da "máfia das sanguessugas", apenas realimentou o sonho da direita de forçar o segundo turno. É neste contexto que se encaixa o odioso artigo do diretor de redação da Folha citado acima. O tiroteio deste jornal na última semana é devastador. Manchetes sensacionalistas e centenas de matérias, até na seção de esporte, visam satanizar o presidente e apelar para o imperativo do segundo turno, "pelo bem da democracia". A pesquisa do Datafolha inclusive foi antecipada, contrariando a Lei 9.504 que disciplina as eleições, para dar a impressão da inevitabilidade do segundo turno.

A distorção da Folha de S.Paulo é tão evidente que até seu próprio ombudsman, Marcelo Beraba, teve de registrá-la envergonhado. "O fato de considerar a conspiração para a obtenção do dossiê mais importante do que o dossiê não significa que eu esteja de acordo com o pouco empenho dos jornais na apuração das denúncias contra Serra e Barjas Negri [dois ex-ministro de FHC envolvidos na compra superfaturada de ambulâncias]. Uma cobertura não anula a outra" (FSP, 24/09/06). Na prática, a empresa de Otávio Frias Filho, o yuppie Otavinho, que no passado cedeu suas caminhonetes para o transporte de presos políticos, hoje prega abertamente um golpe midiático. Esta conduta golpista, seguida pelo grosso da mídia, deveria servir ao menos para acabar com as ilusões sobre o papel imparcial dos meios de comunicação no Brasil.

Altamiro Borges (Frias: da tortura ao golpe midiático)

temperatura máxima?

Poucos dias antes da eleição, marcada para 1º de outubro, surge mais um escândalo envolvendo integrantes do PT e do governo federal. O PSDB e o PFL, da coligação do candidato da oposição Geraldo Alckmin, vislumbraram nas denúncias a oportunidade para impedir a reeleição em primeiro turno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dada como certa por todos os institutos de pesquisa. Com o apoio de grande parte da mídia conservadora, tucanos e pefelistas comandam uma ofensiva para desmoralizar a campanha e o governo petistas.

O sensacionalismo gera indignação e, principalmente, confusão. Em 25 de setembro, Lula, resumiu as perguntas que pairam no ar: "Quero saber quem é o engenheiro que arquitetou uma loucura destas. Porque se um bando de aloprados resolveu comprar um dossiê, é porque alguém vendeu para eles. E este dossiê deve ter coisas do arco da velha. Ou seja, não quero apenas saber do dossiê, quero saber do conteúdo que levou essas pessoas a cometer a barbárie. Quero saber o conjunto da obra."

Tantas interrogações, dão margem a outras tantas interpretações. A imprensa conservadora, interessada na derrota de Lula, ignora outros possíveis enfoques e centra esforços apenas em descobrir de onde saíram os R$ 1,7 milhão destinados a comprar o dossiê. Se os recursos vieram de fora do país para o PT, isso pode justificar o fechamento do partido. Se forem públicos, estaria comprovada a corrupção. Valter Pomar, secretário de Relações Internacionais do PT, porém, é taxativo: "posso garantir que o dinheiro não saiu do partido, nem da campanha de Lula, nem da campanha Mercadante (ao governo de São Paulo), nem de cofres públicos".

De todo modo, o fato é que a crise pode alterar o resultado de uma eleição na qual Lula era o favorito disparado para vencer no primeiro turno. Mesmo assim, até o fechamento desta edição, em 26 de setembro, as pesquisas não mostravam alterações no favoritismo do presidente.

Para se defender dos ataques, lideranças e intelectuais do PT acusam a direita de golpista. "O episódio não permite sustentar a tese da cassação de registro, do impedimento da posse ou do impeachment. O que há de golpista nesta campanha é a difusão da tese segundo a qual Lula pode ser eleito, mas não conseguirá tomar posse ou não conseguirá governar", explica Pomar. Ele revela que há indícios de que o grupo de inteligência de Serra monitorou a operação de compra do dossiê.

Claudio Weber Abramo, diretor executivo da organização não-governamental Transparência Brasil, discorda. "Se você tem gente próxima ao presidente da República e seu coordenador de campanha se metendo numa embrulhada dessas, vão querer o quê? Que ninguém fale no assunto? À oposição interessa explorar o assunto, e estão fazendo o que devem fazer mesmo. Isso é normal", contesta.

Segundo o cientista político Paulo D'Avila Filho, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), o que existe é a percepção da oposição de que foram inúteis seus esforços, desde um ano e meio atrás, para desgastar o governo. O dossiê seria um último recurso dessa tática. "Só que ficam na ameaça pois o sistema financeiro ainda não foi convencido de que é preciso tirar o Lula. Enquanto não fizerem isso, não há alternativa", descreve D'Avila Filho.

Para o sociólogo Emir Sader, o quadro eleitoral está polarizado entre direita e esquerda. "Quaisquer que sejam as críticas que tenhamos ao governo federal, ele ocupa o campo da esquerda. Esta pode se equivocar, mas a direita sabe claramente seu inimigo: o governo Lula. Se ela ganhar, toda a esquerda será vitima", diz.

O sociólogo acredita que o objetivo da direita é derrotar Lula nesta eleição ou em 2010, até lá a tática é criar um clima de desestabilzação e de ingovernabilidade. Segundo Pomar, pouco importa o que o segundo mandato vai fazer, ele será confrontado pela direita diariamente. "Pior, quanto mais concessão fizer ao grande capital, mais fraco será o governo", prevê. Os pilares de Lula para manter a governabilidade, de acordo com D'Avila Filho, são o mercado financeiro e o eleitor que se sentiu beneficiado por políticas públicas em seu governo.

A situação não é boa. Abramo não acredita que o escândalo possa comprometer a governabilidade de Lula. "O que vai comprometer o segundo mandato é uma coisa completamente diferente. Ao se confirmar a redução da bancada do PT no Congresso, o presidente será mais fortemente induzido a fazer alianças com o PMDB, em primeiro lugar, e com os cerca de 100 indivíduos que serão eleitos para a Câmara mas cujos partidos não terão representação no parlamento graças à cláusula de desempenho eleitoral", indica Abramo. O diretor da Transparência Brasil analisa que, um governo de coalizão com esses grupos vai se ver numa crise atrás da outra e "o fisiologismo irá aumentar". Luís Brasilino (“Burrice” de petistas favorece a direita)

Brasil de Fato

setembro 27, 2006

sirenes mudas

O presidente da CPI dos Sanguessugas, deputado Antonio Carlos Biscaia, afirmou que a documentação apresentada pela família Vedoin à Justiça Federal envolve de "forma contundente" o ex-ministro tucano Barjas Negri e o empresário Abel Pereira no esquema de venda de ambulâncias superfaturadas. O imprensalão de "forma contundente" escondeu a manchete "Sucessor de José Serra e Ministro de FHC embalava as ambulâncias".

Bué: mais um capítulo vergonhoso do imprensalão nacional.

Nelson R.PerezQuem pariu Mateus que o embale’

sem golpe

(...) no encontro dos "decentes" do Clube Espéria o bloco conservador fez autocrítica. A seis dias da eleição, colocou na sua pauta os métodos extra-eleitorais. Tem razão o presidente da Câmara quando aponta a busca oposicionista de um "atalho" no "tapetão dos tribunais" e repassar, ainda uma vez -- quanto mais, melhor -- os numerosos exemplos do gênero ao longo da trajetória brasileira do século passado.

"Ninguém quer golpe, é voto na urna", defendeu-se FHC no encontro dos "decentes". Porém os fatos prevalecem sobre as palavras. E é fato que desde o dia 19 último está protocolado no Superior Tribunal Eleitoral uma ação, em nome dos presidentes do PSDB e do PFL, pedindo a cassação do registro da candidatura Lula e a proclamação da inelegibilidade do presidente.

Há porém uma diferença essencial entre os golpes institucionais da direita no passado e no presente: antes, as hostes do conservadorismo contavam com as Forças Armadas, eram estas que impunham de fato as soluções antipopulares. Assim foi em 1937, 1945, 1954, 1961, 1964 e 1969, para citar apenas os casos cruciais. Hoje, não há sinais de que essa velha história possa se repetir.

Na falta de quartéis em cujas portas possa bater, o bloco de direita volta-se para outras instituições em busca de legitimar-se. No próximo Congresso Nacional é altamente duvidoso que encontre abrigo, a julgar pelas projeções sobre sua composição. Encontrou aparentemente alguma guarida no presidente do TSE, que ao acatar seu pedido apressou-se a mencionar o caso Watergate (que, em totalmente outras circunstâncias, derrubou o presidente Richard Nixon em 1974).

A nova disposição belicosa da direita fornece um motivo suplementar, se motivos faltassem, para impulsionar a "onda Lula" nos dias que faltam para o 1º de outubro. Neste domingo, falarão os 125 milhões de cidadãos-eleitores, detentores da soberania popular, que na hierarquia democrática encontra-se acima e além de todos os Poderes da República. Os votos em Luiz Inácio Lula da Silva serão também a resposta do povo aos golpistas de hoje e sempre. Dia 1º, a resposta aos golpistas

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431 personalidades apóiam reeleição de Lula já no primeiro turno

A reeleição de Lula recebeu o apoio de 431 intelectuais, artistas e líderes religiosos e de movimentos sociais. No manifesto “Com Lula, nossa responsabilidade social”, personalidades como Candido Mendes, Maria da Conceição Tavares, Emir Sader, Leonardo Boff, Jurandir Freire Costa e Dom Waldyr Calheiros defendem a reeleição já no primeiro turno. Segundo o documento, a vitória em 1º de outubro fortalecerá ainda mais o presidente Lula, que estará “livre de pressões poderosas em contrário, capaz então de realizar e ampliar transformações que a sociedade exige”. Íntegra do manifesto

vermelho.org

com Sensus

Diretor do Sensus analisa resultados da última pesquisa

O presidente do Instituto Sensus e responsável pela pesquisa CNT/Sensus, Ricardo Guedes, disse em entrevista a Paulo Henrique Amorim, nesta terça-feira, dia 26, que o candidato do PSDB à presidência da República, Geraldo Alckmin, ganhou votos de Heloísa Helena e dos indecisos. Segundo ele, Alckmin cresceu nos últimos 30 dias nas pesquisas, mas Lula se manteve estável, no patamar de 59% dos votos válidos. "Alckmin cresceu oito pontos percentuais pelo refluxo dos chamados votos de protesto de Heloísa Helena para ele", explicou Guedes.

“A distância dele (Lula) para a linha limite dos 50% é de nove pontos percentuais, o que indica vitória de Lula no primeiro turno”, explicou Guedes. Segundo ele, apenas 3,2% dos eleitores entrevistados mudaram a intenção de voto em Lula por causa do episodio Vedoin.

Guedes lembrou que se a distância de Lula da linha limite dos 50% é de nove pontos, a soma dos outros candidatos também é de nove pontos para baixo, o que daria uma distância de 18 pontos percentuais entre Lula e a soma dos outros candidatos juntos. Íntegra da entrevista

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Vamos ou não vamos ter segundo turno?

Franklin Martins

Pelos números do Sensus divulgados ontem, Lula deve vencer já no próximo domingo.

De acordo com a pesquisa, ele teria 51,1% das intenções de voto, quase o mesmo índice do levantamento de um mês atrás, contra 35,5% de todos os outros candidatos somados.

O voto espontâneo em Lula subiu de 43% para 46%. Para os especialistas, trata-se de um voto consolidado, (...) Os institutos vêm evitando dar explicações públicas para as discrepâncias. Vigora entre eles o acordo tácito de não alimentar polêmicas públicas. Mas, em conversas reservadas, vários especialistas disseram-me nas últimas 48 horas que não têm dúvidas de que a tendência mais forte é de que a eleição se decida no primeiro turno.

De hoje até sexta teremos novas pesquisas do Datafolha, do Ibope e do Vox Populi. Vamos ver se elas convergem ou se seguem atirando para lados diferentes. [mais]

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Debate define se haverá segundo turno

Pedro do Coutto

O debate de amanhã à noite, na Rede Globo, entre os principais candidatos à Presidência da República, incluindo inevitavelmente o dossiê contra José Serra, dependendo dos rumos de que ele se revestir, decidirá se haverá ou não segundo turno entre Lula e Geraldo Alckmim. Tudo o que aconteceu na campanha eleitoral, até explodir o último escândalo envolvendo assessores do Planalto, pode ser superado pelo confronto que vai se travar nas próximas horas. Não que o ex-governador de São Paulo possa ultrapassar o presidente, pois a frente deste para aquele é muito grande, mas no sentido de transferir o desfecho do primeiro para o último domingo de outubro.

O debate realizado pela Rede Bandeirantes, ao qual o presidente Luís Inácio da Silva não compareceu, alcançou apenas 3 pontos de audiência, como me informou o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro. O de amanhã à noite vai alcançar - penso eu - entre 40 a 50 por cento, já que a perspectiva está esquentada pela tentativa de alterar o quadro sucessório.

O debate na Globo é outra coisa. Pode produzir mudanças substanciais. Não para inverter agora, já na reta final das urnas do primeiro turno, a posição dos principais candidatos. Mas para assegurar ou não a realização de um segundo confronto no voto.

(...) Até a explosão do escândalo do dossiê, envolvendo pagamento em reais e dólares para Vedoin, da Planam, eu acreditava firmemente na vitória de Lula no primeiro turno. Todos os fatos e tendências levavam a este raciocínio. Mas agora estou em dúvida. Vai depender da noite de amanhã, na Globo, e do encadeamento dos lances finais da campanha.

Com isso, cada vez me convenço mais da beleza e da certeza da frase do ex-governador Magalhães Pinto: Política é como a nuvem; muda de forma e de direção a todo instante. São os ventos do destino. Imprevisíveis. Aliás no universo político a previsão é uma tarefa de risco.

(...) Os fatos imprevistos iluminam e fascinam ainda mais os confrontos da política. Para De Gaulle, política é uma ação firme e forte em torno de idéias claras e simples. Luta pelo poder, arte do possível, mas sobretudo o único instrumento de realização coletiva possível. Amém.