outubro 26, 2006

muros da vergonha I

Policiais norte-americanos patrulham uma área da fronteira EUA-México

Foto © G1

WASHINGTON (Reuters) - O presidente dos EUA, George W. Bush, sancionou na quinta-feira uma lei para a construção de uma cerca de 1.126 quilômetros ao longo da fronteira do país com o México, uma medida, aprovada em um ano eleitoral, para o combate à imigração ilegal e para ajudar o Partido Republicano nas urnas.

A manobra deve deixar os mexicanos furiosos. O presidente eleito do México, Felipe Calderón, disse neste mês que a lei "complicaria enormemente" as relações com os EUA.

O Partido Republicano espera que a medida renda-lhes alguns votos para o pleito de 7 de novembro, com o qual o Partido Democrata espera tomar o controle do Congresso.

"Temos a responsabilidade de garantir a segurança de nossas fronteiras. Encaramos essa responsabilidade muito seriamente", afirmou Bush na cerimônia em que assinou o projeto de lei, no Salão Roosevelt da Casa Branca.

O presidente negou-se, durante bastante tempo, a apoiar um projeto de lei limitado a garantir o controle da fronteira, tendo gastado meses tentando, sem sucesso, convencer o Congresso a aprovar uma medida mais ampla que incluiria um programa de trabalhadores visitantes para os imigrantes ilegais.

O Senado aprovou o projeto defendido pelo dirigente, mas os republicanos que controlam a Câmara dos Deputados descartaram o programa, temendo o impacto eleitoral entre os norte-americanos preocupados com as consequências da imigração ilegal em seus Estados.

Em suas declarações, Bush insistiu que o programa de trabalhadores visitantes melhoraria a situação da fronteira e disse que os norte-americanos precisavam enfrentar a realidade de que milhões de imigrantes ilegais já moravam nos EUA.

"Precisamos reduzir a pressão em nossas fronteiras criando um plano para o trabalho temporário. Os trabalhadores dispostos a assumir as atividades que os norte-americanos não estão assumindo em caráter temporário deveriam ser aproximados dos empregadores dispostos a dar-lhes emprego", afirmou.

A cerca de 1.126 quilômetros se estenderia por quatro Estados do sudoeste norte-americano -- a Califórnia, o Arizona, o Novo México e o Texas. A fronteira entre os EUA e o México possui 3.200 quilômetros de extensão.

A nova lei não prevê quem pagará pela nova cerca e limita-se a autorizar a construção dela. Parte do dinheiro para a cerca, 1,2 bilhão de dólares, viria da lei de segurança interna sancionada pelo presidente neste mês.

Os republicanos presentes no Congresso aprovaram o projeto semanas atrás, mas demoraram até enviá-lo a Bush, deixando para tomar a medida em uma data mais próxima do dia da eleição.

Os democratas viram na nova lei uma manobra eleitoral.

"Ao abandonar a reforma ampla no setor de imigração e aprovar essas manobras políticas feitas em anos de eleição, o presidente Bush e os republicanos de Washington colocaram, mais uma vez, os interesses de seu partido acima dos interesses do povo norte-americano", disse Luis Miranda, porta-voz do Comitê Nacional Democrata. Steve Holland [Bush aprova construção de cerca na fronteira dos EUA com México] swissinfo.org

EUA querem estender muro em 1,6 mil quilômetros. © BBC

Foto © AFP

Quando finalizado, o muro na fronteira entre os Estados Unidos e o México será a maior construção da história depois da Muralha da China. rfi.fr/actubr

foto © carta maior

Norte-americanos contra muro na fronteira entre México e EUA

A maioria dos norte-americanos ouvidos numa sondagem divulgada quarta-feira pela CNN opõe-se à construção de uma barreira dupla ao longo da fronteira entre os Estados Unidos e o México.

O estudo foi divulgado na véspera do acto formal de assinatura, pelo presidente George W. Bush, da lei que autoriza aquele projecto.

De acordo com a sondagem, 53% dos inquiridos está contra a construção do muro, enquanto 45% apoia o projecto, aprovado por larga maioria no Senado em Setembro último.

O reforço do número de agentes dos Serviços de Imigração, outra das medidas da lei a ser assinada hoje por Bush, é defendido por 74% dos inquiridos.

O estudo mostra que 58% é a favor de pesadas multas para os empregadores de imigrantes sem documentação, mas apenas 34 por cento apoia a expulsão de imigrantes em situação regular.

O muro a construir na fronteira entre os Estados Unidos e o México é uma das poucas concretizações do debate alargado sobre a Imigração que mobilizou o Senado durante meses e que vai ser um dos principais temas da campanha para as eleições de 7 de Novembro.

A 29 de Setembro o Senado norte-americano aprovou por esmagadora maioria, com votos republicanos e democratas, a construção, até 31 de Dezembro de 2008, de um muro com 1.200 quilómetros de extensão, como forma de impedir a entrada de ilegais mexicanos no país.

Há três semanas o presidente norte-americano tinha assinado uma outra lei para financiar o projecto, orçado entre seis e oito mil milhões de dólares (4,7 e 6,3 mil milhões de euros).

Contudo, a verba inscrita na lei é apenas de 1,5 mil milhões de dólares (1,1 mil milhões de euros).

A sondagem foi efectuada entre 20 e 23 de Outubro junto de 1.013 pessoas, com uma margem de erro de 3%. Diário Digital / Lusa

Morrer bem longe

Esta é a razão do muro EUA-México, dizem ativistas do Fórum Social Fronteiriço: levar imigrantes para os pontos de travessia onde ninguém os possa socorrer

Em três anos de vigilância pelas áreas de fronteira entre Méxicos e Estados Unidos, a Organização de Direitos Humanos do Arizona encontrou 698 corpos que pessoas que morreram tentando fazer a travessia. Desses, 317 não chegaram a ser identificados. De alguns, não foi possível saber se era homem ou mulher, tanto demorou para que alguém os localizasse. Muitos morrem de hipotermia, sem ajuda.

É essa, na opinião da organização, a política que Bush quer consolidar com a segunda fase de construção do muro. Levar os migrantes para pontos tão remotos e perigosos, onde não exista socorro e a morte seja certa.

"Desviam para os lugares mais isolados, mais horriveis. Não querem nos ver morrer, nem aceitar a culpa diz uma ativista da organização em depoimento à Radio Comunitária de Atlanta e transmitido pela Radio Bemba.

Pilar Mendes, da emissora alternativa dos EUA descobriu que a tendência é aumentar a morte de mulheres e crianças, o que já vem acontecendo, segundo a organização de Direitos Humanos do Arizona.

Com o cerco imposto pelos EUA, a travessia de novos trabalhadores está mais difícil. Mas as mulheres e crianças tentam chegar ao país onde já estão os seus maridos, que cruzaram antes a fronteira. A perspectiva é de mais terror ainda, com a ampliação do muro.

A Rádio Comunitária de Atlanta - cidade onde se realizará o Fórum Social dos Estados Unidos em 2007 - é um dos meios alternativos que promove o debate da política anti-imigração dos EUA e as condiçòes de vida dos latinos. Também apresenta programas sobre países da América Latina e procura ajudar a a população a manter-se esclarecida e consciente dos perigos. Colaboram vários ativistas de organizações afrodescendentes, que enfretam um cerco cotidiano no país. "Os brancos de Atlanta são muito discriminadores", diz Pilar.

O muro, segundo ela, é uma expressão do racismo. Não querem pessoas de pele mais escura entrando no país. "Trabalhamos para dar uma voz alternativa ãs nossas comunidades"

Todos os anos, ativistas solidários fazem a marcha pelo sendero dos imigrantes. No último, foram 75 mim caminhando durante 7 dias pelos lugares onde os imigrantes estão morrendo. Para Carla Rodriguez, do Arizona, é a política de livre comércio, adotada nas relações entre México e Estados Unidos, a grande causa da travessia e da perda de vidas humanas. "Não perguntam porque as pessoas vem. Fazem o muro. Mas é a política de livre comercio que está nos matando, diz ela.

Por maiores que sejam os riscos, com muro ou sem muro, ela acredita que a travessia vá continuar do mesmo jeito. Para nao morrer de fome em casa com as crianças, as pessoas vão do mesmo jeito. ciranda.net

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