novembro 01, 2006

mestres explicam

Brasília - As correntes tradicionais de poder político concentradas, sobretudo, na região Nordeste, anunciam um princípio de enfraquecimento. Para o professor de História Contemporânea da Universidade de Brasília (UnB) Antônio Barbosa, o caso mais sintomático o da oligarquia da família do senador Antônio Carlos Magalhães (PFL), na Bahia.

... Barbosa cita o caso das candidaturas à presidência da República, ao governo do estado e ao senado federal, nas quais os políticos ligados ao grupo de ACM sofreram derrota. “O candidato Lula foi o mais votado na Bahia, o candidato do senador ao governo do estado [Paulo Souto] foi derrotado e o seu candidato ao senado [Rodolfo Tourinho] foi derrotado”.

O professor ressalva que a análise deve ter cautela. Segundo ele, ao longo de 500 anos de história, a força do “mandonismo político” no Brasil, “traduzida em clientelismo, em fisiologia, em coronelismo” é muito forte. “Não vai ser uma ou outra eleição que estabeleceria um fim, digamos assim, desse tipo de prática política”.

O que acontece, acrescenta o professor, é o fim da influência de determinadas lideranças. Na avaliação dele, há um esgotamento natural e isso fica claro em relação a ACM, na Bahia, e a José Sarney, no Maranhão.

“Aliás, para se manter como senador nas duas últimas eleições, Sarney transferiu o seu domicílio eleitoral para um pequeno estado do extremo Norte do país e, agora, viu a sua filha sendo derrotada no Maranhão”, constatou, em referência à Roseana Sarney, que perdeu a candidatura ao governo do estado para Jackson Lago (PDT).

A queda dessas correntes políticas mostra que a população local está tendo maior autonomia. “Seguindo uma tendência que vem da eleição anterior, está havendo uma certa autonomia política das camadas mais pobres, mais humildes e tradicionalmente mais excluídas da população brasileira", observa. "Isso se explica pelo fato de o Brasil estar se urbanizando rapidamente. E essa urbanização não vem sozinha, mas acompanhada de um processo de modernização da economia”.

O professor cita como exemplo o acesso aos meios de comunicação, principalmente ao radio e à televisão. “Ainda que de maneira superficial, uma parcela muito expressiva da população brasileira toma contato com algum tipo de informação e, isso está ajudando a tomar posição na hora de votar”.

A maior concentração das famílias com tradição política está no Nordeste e a explicação disso está na história do Brasil. Barbosa diz que desde o século 16 a organização da região foi feita em moldes “extremamente excludentes do ponto de vista social”, com domínio da grande propriedade e uso maciço da mão-de-obra escrava.

A partir desta eleição, a vitória de um governador do PT na Bahia, Jacques Wagner, é simbólica. De acordo com Barbosa, isso “transmite para a população um sentimento de que alguma coisa de muito importante, estrutural, está sendo transformada no estado. Como se estivesse dizendo que acabou o tempo dos coronéis. Agora, se isso vai ter densidade, só o tempo dirá”. [Eleição anuncia enfraquecimento de correntes políticas tradicionais, diz professor da UnB]

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Com a entrada de novas forças em regiões anteriormente dominadas na política por clãs tradicionais, como é o caso da Bahia e do Maranhão, a população tem uma chance de mudar sua situação socioeconômica.

Para a cientista política e professora da Universidade Federal de São Carlos, Maria do Socorro Braga, é preciso que, nos próximos quatro anos, um projeto político seja capaz de beneficiar os principais seguimentos sociais. “Do contrário, se não der certo, o grupo político anterior acaba voltando com muito mais força”.

De acordo com ela, esses clãs foram responsáveis pela continuidade da situação socioeconômica dos estados que dominavam. “A concentração das pessoas mais carentes e empobrecidas no Nordeste favorece a manutenção dos clãs", avalia. "São eles que mantêm em suas mãos os principais meios de comunicação, a retransmissão de emissoras importantes no país. Agora, estão perdendo força. Isso vem acontecendo há algum tempo”.

A partir das eleições deste ano, Braga passou a observar a competitividade de forças em nível estadual. No municipal, no entanto, outros partidos já vinham competindo.

A derrota da oligarquia do senador Antônio Carlos Magalhães (PFL), que há 20 anos controlava politicamente a Bahia, é, na avaliação da professora, “um sinal de como a democracia está muito mais consolidada agora”. “Um sistema em que você tem uma força predominando durante tanto tempo não demonstra uma democracia, que é quando você tem que ter competição entre os principais partidos”. [Queda de famílias políticas tradicionais permite à população mudar situação socioeconômica, diz professora]

Keite Camacho

Agência Brasil

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