novembro 04, 2006

O inferno astral da classe média

Ou os turistas se organizam para defender seus direitos ou daqui a pouco viajar no feriadão será algo tão penoso quanto conseguir atendimento em hospital público em dia de acidente de trem. Como se não bastasse o caos habitual nas estradas, a desordem nos aeroportos neste Finados lembra ponto de ônibus após noite de ataques a São Paulo. Periga o PCC se aproveitar da confusão na área de check-in para incendiar aviões parados na pista.

Sorte das companhias aéreas, aliás, que passageiro de avião não é de reclamar nem quando lhe servem maxi goiabinha e ice tea de pêssego no almoço. Nas áreas da expansão do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, é comum ver bandos deles circulando feito baratas tontas de um portão de embarque para outro, atendendo aos comandos de voz do sistema de alto-falantes. Viajar de avião não é coisa para amador.

Tá certo que não é só no Brasil que a aviação comercial perdeu inteiramente o glamour - o fenômeno da esculhambação do serviço de bordo é mundial -, mas, convenhamos, tudo tem limites. As cenas que estamos assistindo no “Jornal Nacional” por conta do movimento dos controladores de vôo – ô, raça! - são desumanas com aqueles pobres coitados em gozo de folga. Nem no inferno o Dia dos Mortos é tão animado!

Não sei exatamente o significado dos feriados na vida do leitor, na minha não fazem a menor diferença. Raramente deixo de trabalhar nesses dias em que, por determinação civil ou religiosa, troca-se o serviço pela praia, os engarrafamentos da cidade pelos das estradas, um bom DVD por madrugadas em salas de embarque, um aborrecimento por outro. Jornalistas são como médicos, policiais, porteiros de boate, garçons, flanelinhas, bilheteiros de cinema, funcionários da praça de pedágio, lixeiros, motoristas de táxi, garotas de programa e donas-de-casa. Para essa turma – ô, raça! -, feriados são por vezes até mais trabalhosos, quando não demasiadamente enfadonhos.

Pensando bem, podia ser pior, ainda que não tão ruim quanto a vida de passageiro de avião. Tem gente que nessas ocasiões leva sete, oito horas ao volante do carro para chegar à praia. Acontece também de, em lá chegando, faltar água, fazer calor à noite, entupir o vaso sanitário, acabar a cerveja gelada, pisar no ouriço, vazar óleo no mar, ventar de doer, tocar pagode na vizinhança, chover e, supra-sumo do inferno, os mosquitos invadirem sua praia.

A felicidade, como se sabe, é coisa relativa nos feriadões, quando o ser humano fica mais tolerante com aborrecimentos. De folga, o brasileiro médio é capaz de abrir mão de todo conforto que o trabalho lhe proporciona. Troca o jantar por qualquer pizza, o ar condicionado pelo ventilador de teto, a privacidade do quarto pelo sofá-cama da sala, a TV tela plana de 29’ recém instalada na sala de sua casa por aquela velha 14’ cheia de fantasmas que foi acabar sua vida útil na casinha de veraneio, troca até “Manhattan Conection” por “Sob nova direção”.

Faz qualquer negócio pela sensação de estar experimentando algo diferente para quebrar a rotina. Divide banheiro com o cunhado, pipa d’água com vizinhos, sorvete com a sogra, banana bot com a garotada na praia, não há mico que lhe estrague o dia. Sei lá o que pensam da raça humana em outros planetas, mas devem achar uma loucura esse movimento que leva todo mundo a fugir da confusão urbana ao mesmo tempo, gerando confusão em lugares que não estão preparados para receber tanta gente e deixando para trás, no próprio bairro onde vive, a tranqüilidade que saiu para buscar fora de casa.

Coisa de alienígena! É claro que de vez em quando é divertido, quem já acampou sabe a farra que é a precariedade da existência. Quando está muito a fim de se divertir, o homem não dá a menor bola para a sucessão de coisas erradas que desencadeia a vida de cada um. Diverte-se, e pronto, mas, como disse ainda há pouco, tudo tem limites.

A classe média, a turma que não tem acesso nem à bolsa família nem ao BNDES, não merece o que está passando nos aeroportos de todo o país no último Dia dos Mortos do primeiro mandato da erao governo Lula. Sabe quanto custa um pacote turístico para o feriadão com a família e os namorados das filhas em Porto Seguro? Uma grana, mas o mico de aparecer indignado de bermudas, sandálias e óculos escuro no “Jornal Nacional”, isso não tem preço. É pura sacanagem!

Tutty Vasques

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