novembro 04, 2006

quem controla o céu II

As torres invisíveis

Greve do zelo dos controladores de vôo brasileiros mostra dificuldade em visualizar o mundo do trabalho e seus dramas numa cultura que privilegia o consumo como referência.

Flávio Aguiar

SÃO PAULO – Não houve uma assembléia tradicional, com pessoas convocadas num auditório, encaminhamentos a favor, encaminhamentos contra, mãos erguidas na votação. Não houve palmas, não houve vaias, não houve murmúrios nem assobios. Foi tudo silencioso, e provavelmente pelo computador, com mensagens cifradas ou não. Assim começou o movimento dos controladores de vôo, no Cindacta 1, o centro de controle de vôos em Brasília. E assim o apoio ao movimento (que foi inequívoco) se alastrou pelas demais torres de controle pelo país afora, sobretudo nos outros pontos nevrálgicos do espaço aéreo brasileiro, notadamente São Paulo e Rio de Janeiro.

Os passageiros, nos aeroportos, ficaram perplexos ou furiosos; o mesmo aconteceu na Aeronáutica; o mesmo aconteceu no governo (“Lula mostrou irritação no encontro no Planalto e chegou a dar socos na mesa” – Estado de S.Paulo, 2/11, C1). A mídia, no começo, sobrevoou o problema. Qual a razão? Tem uma tendência a focalizar apenas ou primordialmente o problema do ponto de vista do “consumidor”, ou da “prestação de serviços”, que foi interrompida ou seriamente prejudicada. A questão do “mundo do trabalho” aparece apenas lateralmente, assim como este mundo, na maior parte dos jornais, fica emoldurado pelas seções de “economia” ou de “serviços”, mesmo, em cadernos como “dia a dia”, “cotidiano”, “metrópole”, e outros.

Nos jornais, o movimento dos controladores de vôo ganhou dois nomes: “operação padrão” e “greve branca”. Na verdade, o nome tradicional desse tipo de movimento – demais de esquecido nesta submersão do mundo do trabalho no piscinão neoliberal – é “greve do zelo”. Talvez nem mesmo os controladores de vôo saibam disso. Consiste numa aplicação tão estrita das regras de controle de uma determinada função que o serviço fica lento e prejudicado. É uma greve característica de situações em que há um descompasso muito grande entre as condições de trabalho adequadas para o exercício de uma função, previstas em lei ou em normas consuetudinárias, e a realidade do cotidiano dos trabalhadores. É comum entre fiscais portuários, fiscais da receita, policiais federais (houve uma recentemente, quanto ao controle de passaportes, alguém se lembra?), e em situações repressivas (legais ou outras) ou simplesmente limitadoras, que coíbem o exercício do direito de greve – como é o caso dos controladores de vôo, que exercem uma função ao mesmo tempo vital e militarizada no Brasil.

Há duas séries de razões para a eclosão do movimento trabalhista nos aeroportos: uma estrutural e a outra circunstancial. A estrutural é a inadequação das condições às exigências de trabalho: ficaram patentes – nas informações que vieram à tona – os baixos salários, o excesso eventual ou permanente de carga de responsabilidade para cada operador, falta de pessoal, e a falta de reconhecimento dessas dificuldades por parte de autoridades competentes ou simplesmente do mundo cultural em que os usuários (os “consumidores”, em outro jargão) navegam. Não adianta querer atribuir toda a culpa disto ao governo Lula dos últimos quatro anos; mas não adianta também eximi-lo da responsabilidade compartilhada, tanto a de ter deixá-la dormitar quanto a de agora tomar providências urgentes para começar a resolvê-la (a causa estrutural).

A razão circunstancial fica por conta da tragédia do Boeing da Gol, atingido pelo Legacy que vinha na “contra-mão”. Pelo que se revelou até agora, houve uma série de “pequenos” erros que se transformaram numa grande tragédia, desde problemas com mecanismos (o Transponder do Legacy) até problemas lingüísticos e de costumes de países diversos: “OK, 370 to Manaus”, teria dito o controlador da torre de São José dos Campos para os pilotos do Legacy. No comentário de autoridades brasileiras da área, um piloto brasileiro teria entendido que 370 era a velocidade inicial de cruzeiro, devendo o piloto seguir o plano original de vôo. Pelo visto, não foi o que os pilotos do Legacy entenderam, o que pode ter contribuído para a tragédia.

Mas no clima de linchamento que a busca da manchete mais sensacionalista quer, isso já se transformou, em diversos veículos de imprensa, em “Caixa Preta de Legacy revela que torre errou”, ou algo parecido. Os controladores de São José são a bola da vez, como já foram os pilotos norte-americanos ou os operadores do Cindacta 1, de Brasília. Nesse clima de sensacionalismos, linchamentos e espetáculos de fim de semana, em fim de semana de Finados, ainda com a exaltação pós-eleitoral, para que um clima de caos no país é conveniente, é que eclodiu a greve do zelo dos controladores aéreos brasileiros, que terá conseqüências políticas e trabalhistas, sem dúvida.

Mutatis mutandis, como as senzalas de antigamente, as torres de operação deveriam ficar invisíveis, com seus problemas trabalhistas silenciados: jamais poderiam invadir o “clean” espaço dos saguões dos aeroportos. Não foi o que aconteceu: apesar da “vagareza dos minutos”, os tempos mudaram.

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