janeiro 29, 2007

Be wise, O my Sorrow, be calmer.*

O mal-estar da civilização, agora no corpo

Uma das marcas da pós-modernidade tem sido uma progressiva troca entre o desenvolvimento da interioridade e da subjetividade, que tanto caracterizaram a modernidade, pela valorização do exterior: a performance e o corpo carregam e dizem mais sobre as pessoas do que suas idéias e sentimentos. Decorre daí a ampla procura por cirurgias plásticas, próteses, botox e também o culto ao corpo malhado, sarado, escultural.

Mas há mais um fenômeno que só me chamou atenção recentemente por causa do tal acidente de trânsito que me provocou a síndrome do chicote: RPG, fisiatria, osteopatia, rolfing, shiatsu, fisioterapia, terapia corporal, body talk, tuiná, massoterapia, pilates, gyrotonics, vale tudo para colocar a coluna vertebral no lugar e curar as dores físicas de viver.

De repente, quando olhei em volta, percebi que havia um excesso de oferta de tramentos para o corpo, como se todos nós estivéssemos doentes não mais da alma, mas das vértebras. Lembrei que, pela primeira vez na história da civilização, o número de trabalhadores intelectuais supera o de operários braçais. Há muito mais gente diante de um computador do que carregando uma enxada. Logo, a demanda por uma postura correta aumentou proporcionalmente.

Só que não pode ser só isso. Estaríamos todos acometidos por crises de tendinite? Claro que não. Estaríamos, então, depositando no corpo o mal-estar da pós-modernidade, sofrendo de dores físicas como os românticos sofriam de dores na alma, sentindo nas vértebras da coluna os problemas que não teríamos a coragem de enfrentar no espírito? Estaria o RPG substituindo o divã? Afinal, ambos exigem que o paciente se deite… Só que parece muito mais fácil para a nossa cultura queixar-se de dor nas costas do que de vazio na alma.

Carla Rodrigues

*Charles Baudelaire - Meditation

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