janeiro 03, 2007

Essa já perdemos

Devemos todos pendurar 2006 na parede para lembrarmos sempre como deve ser um ano prenhe de descobertas. Não há dúvidas de que, pelo menos nisso, este foi um ano exemplar. Nunca tivemos tanta novidade em tão pouco tempo e por tão largo período.

Tantas e em tal quantidade que, daqui a algum tempo, quando alguém fizer referência a 2006 não poderá dizer que houve de tudo um pouco. Não senhor, neste ano houve de tudo muito. Do prefeito aos governadores, da Câmara de Vereadores à Assembléia, tanto os grandes quanto os pequenos funcionários públicos nos forneceram os mais claros exemplos de uma prestação de serviços inepta.

Não foi necessário mais que um par de meses para os fluminenses descobrirem que a crise da Saúde, parida pelo ministério correspondente no ano anterior, era uma verdade permanente. O governo Lula tirou o dinheiro das mãos irresponsáveis do município e o depositou nas mãos irresponsáveis do Estado. No gesto, entregou a população doente a hospitais sem remédio, água ou comida.

Foi também o ano em que o carioca viu com clareza inédita a cidade esfarelar-se debaixo dos pés. Projetos como Rio Cidade e Favela Bairro foram por água abaixo. Vitimou o primeiro a inapetência administrativa do prefeito. O segundo virou sumidouro de dinheiro. Sempre que uma etapa era concluída, ia sendo deixada para trás e destruída pelo uso e a ação do tempo associados à falta de conservação. Já enterrou 600 milhões de dólares.

Quando Cesar Maia anunciou ter nas favelas sua opção preferencial enganou-se quem pensou ter ouvido a palavra qualidade. O correto é quantidade ou, traduzindo, voto. Eis o truque. Daí o prefeito ter passado a dizer qualquer bobagem que viesse à cabeça para justificar-lhes o crescimento desenfreado para os lados e para o alto.

O Rio perdeu em várias frentes. A política tomou-lhe o prefeito. Sim, senhor, o servidor público nº 1 da cidade enveredou pelas campanhas e delas nunca mais saiu. Interesses pouco confessáveis de vereadores e secretários do município arrebataram algumas das regiões mais bonitas, como as vargens (Pequena e Grande), para o aplauso da especulação imobiliária e dos administradores de bolsões de voto da favelização. Os governadores fizeram o resto.

Com o casal que os governou, cariocas e fluminenses descobriram em 2006 que exercer o poder é atividade estreitamente ligada à magia. Nada a ver, porém, com o ilusionismo que encanta os olhos. Foi na mão grande mesmo. O dinheiro público que foi passado de um lado para outro do Orçamento nunca virou escola, hospital ou estrada. Sumiu, mesmo. Há fartos sinais de que teria ressurgido em pré-campanhas, campanhas propriamente ditas e até compra de votos. Mas, sabe como é, as entranhas do truque o mágico nunca revela, porque a graça está em deixar metade da platéia na dúvida.

Mas isso é bobagem perto do que a dupla ofereceu à descoberta dos governados. Como se fosse pouco o milagre da multiplicação das obras, a tunga nos recursos da Saúde ou a destinação da Fundação Escola do Serviço Público a convênios nebulosos, o casal de governadores instalou a população na mais grave crise de Segurança já registrada no estado. Isso, sim, é política de terra arrasada.

A guerrilha urbana que aterrorizou o Rio na última semana do ano não é só resposta de traficantes à invasão de favelas por milícias que os expulsam. E se for, tem importância apenas relativa. A questão não é essa. O que esse terrorismo indica é o choque entre dois estados paralelos. É isso: temos um novo estado paralelo, que cresceu sob o encolhimento do estado de direito, como há muito vem fazendo o tráfico.

O governo - que só depois de oito anos o eleitor decidiu enxotar de volta para casa - desarmou as defesas da sociedade. Tirou os telefones da polícia, deu-lhe um sistema de comunicações onde qualquer ladrão de galinhas entra, ouve e fala, e condenou policiais a alvos de aprendiz de bandido. Senta-os num carro sem motor ou combustível numa avenida qualquer e chama isso de visibilidade. É o mesmo governo que tirou do comando o coronel que botou a boca no trombone depois de ouvir um pedido indecente de um secretário de estado. Esse governo desmoralizou a polícia.

As milícias, que tanto escândalo causam agora, são velhas conhecidas dos governos do Estado e do município. Na favela Rio das Pedras, onde a mais antiga está há pelo menos 20 anos, sempre foram bem recebidos juízes, secretários de estado e políticos vários, além de graduadas figuras das polícias Civil e Militar. Em todas as comunidades hoje controladas por milícias é saudado por faixas o apoio do deputado federal Rodrigo Maia, filho do prefeito. A polícia sabe disso como também o sabem os governadores, o prefeito, a Polícia Federal e o ministro da Justiça.

Por isso, importam pouco as causas ou o vencedor da guerra que botou em pânico o carioca nos últimos dias do ano. A sociedade já a perdeu. Se o tráfico de drogas for sufocado, reduzido à expressão mínima (o que é bom), quem sufocará as milícias? A polícia? Teremos então uma guerra da polícia contra a polícia? Pior: quem convencerá as pessoas que só pensam em livrar-se do tráfico de que o que muda é só o tipo de crime? Quem explicará que a mudança não se limita a um bando de negros e pobres que passarão a ser achacados nas favelas? E isso é só o início do novo ano, leitor. Felicidades.

P.S.: O casal de governadores que finalmente larga o osso nas próximas 48 horas é a prova mais evidente do fracasso de todas as iniciativas destinadas a fixar o homem à terra. Se algum desses projetos tivesse dado resultado, certamente não teria sido permitido aos Garotinho saírem de Campos.

Xico Vargas

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