janeiro 15, 2007

MULHERES NA POLÍTICA

Angela, Ségolene, Hillary, Michelle. O jornal britânico escreve que a política está a feminizar-se e sustenta que os eleitores pedem. Outros, como a politóloga Edurne Iriarte, não crêem que as mulheres exerçam o poder de forma muito diferente da dos homens. E as eleitoras, votarão de acordo com a solidariedade feminina? Esta é uma das questões que surgem num momento em que as líderes emergem por todo o mundo

Várias teorias defendem que as mulheres governam melhor do que os homens. Falta confirmar. A análise da catedrática espanhola Edurne Uriarte*.

O mito da boa dirigente

As prioridades e os valores delas são diferentes das dos homens? Exercem o poder de maneiras distintas? Começo por abrir jogo respondendo com um «não» céptico. Mas ficarei radiante por mudar de opinião, se os dados de que dispusermos nos próximos anos vierem a confirmar aquilo que, de momento, não é mais do que uma hipótese e um desejo, ou seja, que as mulheres não governam da mesma forma que os homens.

Pela primeira vez na História, estamos em condições de responder a estas questões. As barreiras aparentemente intransponíveis que impedem as mulheres de aceder às mais altas funções políticas caem à mesma impressionante velocidade do muro de Berlim. Era uma revolução anunciada, mas o processo não deixa por isso de ser impressionante.

Várias mulheres chegaram em simultâneo ao cume do Estado, nos quatro cantos do mundo: AngelaMerkel na Alemanha, Ellen Johnson-Sirleaf na Libéria, Michelle Bachelet no Chile e, em reeleição, Tarja Halonen na Finlândia. É verdade que as mulheres já tinham evoluído dentro dos órgãos legislativos. Mas a sua presença nos parlamentos não bastava para levantar as dúvidas sobre as suas possibilidades de ascensão, porque o legislativo tem menos poder do que o executivo e a sua composição é muito mais determinada pelas quotas.

Em compensação, nenhum partido se deixa guiar por quotas quando chega a hora de apresentar um candidato à chefia do Governo ou do país: a esse nível, trata-se de competição pelo poder em estado puro, um corpo-a-corpo sem outras armas senão a capacidade de cada um congregar eleitores. Esse corpo-a-corpomostrou definitivamente que ser candidata já não é limitativo aos olhos dos eleitores. Os exemplos citados mostram, com efeito, que a situação está a mudar.

O sistema eleitoral chileno, onde homens e mulheres colocam os boletins de voto em urnas distintas, permitiu constatar que os dois sexos apoiaram Michelle Bachelet em proporções muito idênticas. A sua condição de mulher não teve qualquer incidência: não lhe deu votos suplementares entre o eleitorado feminino e, sobretudo, não lhe retirou eleitorado masculino. E havia quem dissesse que o Chile era um país machista… Permanece, contudo, a questão: as mulheres irão mudar o mundo? Sabemos agora que a paridade no poder é apenas uma questão de tempo, mas ignoramos se as mulheres irão transformar esse poder. A maioria das teorias garante que elas têm valores e objectivos diferentes, que o seu estilo de liderança também é diferente e que esses valores e esse estilo são melhores e mais desejáveis.

O mito da boa dirigente alimenta- se da ideia de que as mulheres privilegiam a integração, a igualdade e a interacção, que incentivam a participação, que partilham o poder e a informação e que concedem maior importância à vertente relacional. E, ainda, que se baseiam mais no poder pessoal do que formal, isto é, no poder que não depende da posição ocupada mas da capacidade para instaurar a confiança, o respeito mútuo e a credibilidade.

Não é magnífico?, diremos forçosamente, ao ler o que ficou dito e que resume fielmente vários estudos sobre liderança feminina. Posto isto, nós, as mulheres, reunimos todas as qualidades para ser o chefe ideal, o presidente perfeito, o poder justo e generoso, em suma, tudo o que esses homens agressivos e ambiciosos não foram capazes de ser. E não são apenas mulheres ou feministas que o afirmam. Alguns homens também estão convencidos disso.

Há alguns anos, Francis Fukuyama afirmava que um mundo gerido por mulheres seria regido por regras diferentes e que, quando elas assumissem o poder, ele se tornaria menos agressivo, menos arriscado, menos competitivo e menos violento. E não é o único a pensar assim. Um dos mais brilhantes analistas políticos ac actuais, cronista da revista «Newsweek», Fareed Zakaria, escrevia há pouco que a chegada das mulheres ia transformar o poder político. Contudo, nenhuma prova empírica digna desse nome conseguiu confirmar o que é, acima de tudo, um desejo das mulheres e, talvez, um mito do feminismo. O mesmo Zakaria tem a ingenuidade de qualificar como excepções três das primeiras e maiores dirigentes do séc. XX: Margaret Thatcher, Golda Meir e Indira Gandhi.

Há também quem fale de excepção quando se fala de Condoleezza Rice. E, no entanto, essas mulheres constituem uma boa parte da experiência real de que dispomos até à data. Tenderiam a provar que não existe um comportamento tipicamente feminino nos lugares cimeiros do poder e que a ideologia e o contexto políticos do país determinam as decisões, muito mais do que o sexo.

Outro problema é que todas estas teorias se baseiam fundamentalmente na opinião que as mulheres fazem de si mesmas. Há alguns anos, efectuei uma sondagem junto dos deputados espanhóis, em que perguntava se notavam diferenças na forma de exercer o poder de homens e mulheres. As mulheres achavam imensas e todas a seu favor. Os homens muito poucas e não a favor das mulheres.

Coloca-se ainda uma terceira questão: boa parte das teorias sobre as vantagens da liderança feminina provém da esquerda e mistura os ideais de esquerda com os do feminismo, o que falsifica a ideia que temos do poder no feminino. Isso explica, por exemplo, que se considere sistematicamente Margaret Thatcher como uma excepção.

Além disso — uma quarta questão—, essas teorias repousam numa representação cultural da mulher como um ser pouco agressivo, pouco ambicioso e pouco propenso à competição.

Mas essa representação é tirada da experiência de mulheres que não lutaram pelo poder, não das de hoje.

Por último e mais importante, uma quinta questão que permite pôr em dúvida, pelo menos até ver, a tese da boa liderança feminina. Falta ainda analisar os únicos dados conclusivos, os da experiência das mulheres que finalmente alcançaram, nos nossos dias, o cume do poder. Sem preconceitos e sem mitos. Presumo que o mundo das presidentes será tão competitivo e agressivo como o dos seus homólogos masculinos e que, em circunstâncias idênticas, lançarão a mesma quantidade de mísseis e declararão as mesmas guerras. Porque agora têm de gerir o mundo, não a casa, o que são duas coisas completamente diferentes.

*Professora de Ciências Políticas na Universidade

«El País», Madrid

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