fevereiro 18, 2007

a fábrica de violência

... “O que não podemos ignorar é que a sociedade brasileira, capitalista e ciosa dos seus valores burgueses, vem há muito tempo fabricando em larga escala os agentes da nossa violência cotidiana. Agora de nada adiantará tomar medidas drásticas, como se fosse possível estancar de uma hora para outra, com uma simples canetada, a tal impiedosa onda de violência que ninguém suporta mais. Reverter esse processo levará alguns anos, quiçá décadas. E que ninguém se iluda com soluções mágicas, ainda que alguns programas de TV insistam em transformar tudo isso num circo.

E antes que o leitor se pergunte porque diachos estou tratando desse assunto também aqui na Editoria de Educação do Fazendo Media, permita-me o devido esclarecimento: não será possível reverter a degradante situação a que chegamos sem escola e sem educação pública. E não basta que a Secretária de Educação do Município do Rio de Janeiro anuncie em pleno início do ano letivo que a rede pública municipal ainda dispõe de trinta mil vagas para nossas crianças e adolescentes.

Será preciso que os estudantes que preenchem tais vagas recebam um ensino e uma formação efetivamente de qualidade. De que adianta que sobrem vagas se ao final do ensino fundamental tivermos apenas uma massa de analfabetos funcionais? Os últimos resultados do (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) mostram que a qualidade da formação continua caindo. E esta é a sutil engrenagem da fábrica de violência que não pára de funcionar.

Enquanto o ensino público fundamental não for merecedor da indispensável valorização de que necessita, continuaremos a fabricar incontáveis criminosos prontos a ceifar a vida de muitas outras crianças inocentes tal como o pequeno João Hélio, cujo nome lamentavelmente será esquecido, em meio a tantos outros”.

Denilson Botelho (A LIÇÃO DE JOÃO HÉLIO)

Historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.

Nenhum comentário: